Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Autenticidade

Mosteiro de Tibães: um outro olhar...

Escreve quem sabe

2018-06-05 às 06h00

Analisa Candeias

Ser autêntico é difícil. É tão difícil quanto ser disciplinado. Não penso que seja uma dificuldade presente apenas na sociedade de hoje, ou decorrente das ideias que nela circulam. Ser autêntico sempre foi difícil. Tanto hoje, como ontem. E, para sermos autênticos, penso que devemos ser verdadeiros. Connosco e com os outros.
Esta verdade permite-nos viver em maior equilíbrio entre aquilo que nos rodeia e acontece, e aquilo que sucede dentro de nós. Diariamente. Hora a hora. Ou, se preferirem, minuto a minuto porque é disso mesmo que se trata, utilizarmos a verdade em todos os momentos do nosso dia. E não é complicado reconhecermos a verdade, pois habitualmente é o caminho que nos faz sentir melhor ou, em igual medida, é o caminho mais difícil. Mas, talvez esteja aqui a instigação. Na concretização dos desafios, no alcance daquilo que não é fácil para nós.

Além da verdade, também a simplicidade pode ser uma aliada da autenticidade. Descomplicar, abandonar o supérfluo, adotar uma postura minimalista. Possibilitar o encanto com a contemplação do básico que a vida nos traz e que, por vezes, é muito mais do que esperamos. A simplicidade impele-nos a, talvez, sermos mais gratos e a percebermos as reais dimensões do que é realmente importante. Não nos castiguemos por nos preocuparmos em procurar a beleza das pequenas coisas diariamente, nem por optarmos por um estilo de vida mais simples se é o que é essencial para nós, devemos dar valor a isso.
Assim como também devemos dar valor à originalidade. À diferença e à criatividade. Que são fundamentais para sermos autênticos. E que nos ajudam a manter um ritmo, a procurar uma atualização contínua, com busca de mais e melhor. Ser original é um processo que implica muitas vezes confronto, não-aceitação e imposição de algumas dificuldades, talvez devido aos medos que nos preenchem. Medos esses presentes em todos nós, sem exceção até naqueles mais atrevidos, que ousam ir mais além. Mas que nos permitem sentir mais vivos, com mais energia. E ser original é isso mesmo. Quase sentir que vivemos no limite, livres para acreditar que podemos, e devemos, abandonar aquilo que nos restringe.

E o respeito. Esse valor essencial à relação com os outros. E connosco. Que nos possibilita ouvir e entender as reações daqueles que nos circundam, que nos ajuda a compreender o que realmente desejamos e que gostaríamos de ver cumprido. Sim, porque não é fácil demonstrarmos respeito pelo outro se não tivermos, em primeiro lugar, respeito por nós. E por aquilo em que acreditamos. E por aquilo que sabemos possível de realizar. O respeito que nos permite viver mais a nossa autenticidade. E, talvez, viver mais a nossa liberdade.

Ser autêntico implica o equilíbrio entre todos estes - se lhe quisermos chamar assim - valores. Verdade, simplicidade, originalidade e respeito. Que, todos juntos, promovem a nossa autenticidade, tanto na visão própria como na visão da articulação com o mundo. Porque a relação com o nosso Eu também deve ser autêntica, e trabalhada no sentido de facilitar a expressão de sentimentos e emoções. E, muitas vezes, quando esta autenticidade não é cumprida, ou esta relação de auto-afeto não é alimentada, ficamos doentes, tanto a nível físico como a nível mental. Doença essa que, lentamente, nos corrompe e nos deixa fragilizados. Doença essa que pode levar a lutas e aflições diárias, manifestações de comportamento que são opostas ao que realmente acreditamos.
Será que vale a pena?
Não sermos autênticos?
Livres para atuarmos em respeito connosco e com os outros?

Por isto tudo, e por aquilo tudo em que cada um de nós coloca a sua autenticidade, é difícil ser autêntico. Necessita de disciplina, de rumo, de não perdermos o foco no que é correto. É mais fácil deixarmo-nos levar pelas marés dos pensamentos dos outros, é mais confortável e, sem dúvida, é mais consensual.
Porém, pergunto novamente: é mais sadio?
Deixa-nos mais livres?
São questões muito pessoais, muito individuais, e o meu papel aqui, como profissional de saúde, não é, de todo, uma chamada de atenção moral. É, sim, um papel promotor de estilos de vida saudáveis, que passam pela construção da autenticidade em que cada um de nós. Para vivermos mais e mais tempo sem doença. Ou, se preferirmos, vivermos mais tempo saudáveis.

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