Correio do Minho

Braga, terça-feira

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As palavras polissémicas

Vamos falar de voluntariado…

Ideias

2014-04-18 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Nunca imaginámos haver pessoas tão cultas e peritas em linguística, semiótica e semântica, e sobretudo atentas à polissemia.
Uma qualidade de que certas palavras estão dotadas de significarem muitas ideias e de se prestarem a diversas funções gramaticais e de, em consequência, poderem ter o alcance e o sentido que o seu utilizador ou intérprete quiser ou entender dar. Aliás um termo com origem grega, polýs+sêma, mas de inegável relevância e valia quando se intenta (ou não) aplicar uma lei em concreto. Como ocorreu aliás em Guimarães.
Mas o certo é que a partir de agora nos sentimos muito mais à vontade, livres e sem temor de incriminação em parâmetros de ofensa injuriosa ou difamatória para poder apodar de «palhaço» o antipático vizinho do lado. E isto graças aos “ensinamentos” que considerou que tal palavra, porque polissémica, não será injuriosa pois “enquanto palavra, «não excede a grosseria nem a falta de educação»”, “e, quando isso acontece, a justiça «não tem de acolher o significado atribuído pelo visado»” (JN, 11.3.14).
Aliás, seguindo ainda tal raciocínio, o “culpado” de se sentir injuriado e ofendido com o termo «palhaço» será sempre e tão só o apodado como tal ao acolhê-lo e ao atribuir-lhe o significado e volumetria de uma injúria.
Não se discutindo grosserias, faltas de educação ou deselegâncias, não se avança com qualquer crítica ou juízo de valor quanto à posição assumida já que se ignoram os eventuais contornos e pormenores, esconsos ou não, que a sustentam e explicam. Mas alcançada e atingida tal «inteligência», espera-se que nunca mais se “fechem as portas” aos demais carentes do saber, conhecimento, técnica e valia linguísticas, mormente quando formatem uma arte” na aplicação da lei, tendo-se por seguro que a relevância da polissemia num quadro da licitude ou não de termos de múltiplo significado, multifacetados, exigirá um aturado e prévio estudo linguístico para as suas subsunção e qualificação como ofensivo, afastando-se perversas polissemias.
Aliás a aplicação do direito e o enquadramento de factos em ilicitude penal têm-se vindo a revelar uma tão engenhosa «arte» que só os «dotados» e «génios» logram alcançar, podendo-se sempre esbarrar com a polissemia até numa expressão idiomática. O que muito nos arrepia, diga-se, tal como acontece com o termo “palhaço” !...
Um substantivo que significa “artista de circo que diverte o público com habilidades, anedotas, etc.; arlequim, saltimbanco, bobo”, sendo que, como adjectivo, “qualifica” e significa “feito ou vestido de palha”, cómico, burlesco, pelo que deverá até ser muito natural (!?!) que ninguém se ofenda se chamado de tal. O que nos faz sentir “baralhado” e “traído” com tanta “inteligência” e ... em séria dificuldade para compreender e admitir que tal ofensa seja tão só do foro pessoal e subjectiva, e apenas responsável por isso mesmo quem a interiorizou com significado e valência injuriosas.
Aliás, estando-se a falar de palhaços, afigura-se-nos que no caso teria havido até manifesto malabarismo, termo polissémico que significa “prática de jogos malabares”, equilibrismo, e, figuradamente, “coisas difíceis e engenhosas”, o que, diga-se, até se compreende porque nos circos, ombreando com palhaços, há sempre malabaristas: uma “pessoa que executa jogos malabares”, praticando e entregando-se a “certos jogos ou exibições com movimentos difíceis e extravagantes”.
E na verdade, movendo-nos num quadro de pura polissemia e assumindo a «inteligência» havida no caso, é fácil concluir que aí também ocorreu um indisfarçável malabarismo com uma “envolvência extravagante” em coisas difíceis pois, para além da “inteligência”, houve um movimento de “engenho” e “arte” na subsunção dos factos à lei, o que para o povo, néscio mas não burro, foi forma de «fugir com o rabo à seringa».
Aliás, afastando sempre uma qualquer e eventual ofensa ao bom nome e à honra, importará dizer-se que hoje, nos muitos “circos” do país, incluindo os da política, pululam personagens que se assumem como «palhaços» e «malabaristas» em palavras e actos, pelo que, adoptando os “ensinamentos polissémicos”, não será estranho que haja já quem considere o manifesto dos 70 como o “Manifesto dos Palhaços e Malabaristas”.
Dos já habituais e conhecidos, note-se, e dos que desde há muito se vêm “embrulhando” na política, “vivendo” ou dela usufruindo como seus profissionais, esquecendo-se de todas as anteriores “palhacices” e continuando com os seus usuais malabarismos a ressudar irresponsabilidade, inoportunidade, vaidade e sectarismo.
Personagens e figuras que, tendo de certo modo contribuído para o actual estado do país, ignoram e minorizam o esforço que vem sendo feito para sair da bancarrota e da situação calamitosa em que sucessivos governos nos condicionaram e lançaram, sendo que de tal documento sobretudo evola e sobressai um desejo incontrolável de se ser lembrado e voltar à ribalta, porquanto de tão “espúria aliança” nada de útil advirá para o país, seu crescimento e para uma sólida e viável concertação social e política.
Aliás, face à sua inoportunidade e esconsa malevolosidade, são admissíveis e expectáveis múltiplos e perversos efeitos no esforçado trabalho desenvolvido em ordem a “endireitar” o país, soerguendo-o do profundo lamaçal para onde até o lançaram as políticas, “palhacices”, “malabarismos” e utopias de alguns dos seus subscritores.
Mas navegando sempre num “mar” de multifacetismo e de polissemia (polýs+sêma), é uma incontornável verdade que já não nos surpreende ver a Manuela Ferreira Leite a “dançar” com o Louçã nem os “passinhos de dança” do elegante Bagão Félix com o Carvalhas à perna, enquanto, em longa fila e aguardando pela sua vez, há o Cravinho, o Braga da Cruz, o Manuel Saraiva, o Alfredo Sousa e alguns outros políticos da oposição. Aliás num leque alargado de figuras que apenas têm de comum estarem todas “bem na vida” e muito mais preocupadas consigo do que com o povo, porque expectantes e confiantes de que das suas intervenção e publicitação nos media advenham retornos e vantagens, arredando-se assim todo um medo de perda nas cátedras da política, banca, administração e serviços públicos e o perigo de se cair no rol dos esquecidos e inúteis.
Uns “palhaços, malabaristas e equilibristas” que no poder se “enrodilharam” em anedotas, facécias e macaquices e hoje espuriamente “se enlaçam” e “casam”, quando era preferível, como outros, que apenas formatassem uma fundação. Para não serem esquecidos e continuarem no apoio aos já muitos disparates e futilidades que fazem de Portugal um país de doidos, de palhaços e malabaristas

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