Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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As Novas Mediocridades

Muro de Gelo

Ideias

2011-10-14 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Sempre nos suscitaram certas reservas as muito faladas “Novas Oportunidades” com que “ele” costumava encher a boca nos seus discursos e aparições públicas, por tudo e por nada “vomitadas” e propagandeadas.

Com cursos feitos “a martelo”, como soe dizer-se, e exigências de grau zero e eficácia a rondar a mesma cifra, sempre tal slogan nos transportou para certos cursilhos (!?) e demais formações (!?) de sotaque e conveniência político-laboral alimentados por dinheiros públicos e muito usados para mascarar situações de desemprego, ainda que naturalmente proveitosos para quem ia auferindo uns dinheiros, recebia depois um “papel” e era “encaixado” num emprego precário, em regra sem futuro e para o qual não estava minimamente preparado.

Ora segundo os números que constam de um relatório anual sobre a educação “só dois terços dos jovens acaba o Secundário pela via normal”, sendo que “a taxa de sucesso é de 63%, bem abaixo dos 96% revelados pela OCDE”, e “a diferença explica-se pelo diploma dado a quem tem mais de 25 anos, reflectindo o impacto das Novas Oportunidades”(JN, 14.9.11), sublinhe-se e anote-se!

Mas a tal taxa de sucesso formal há que contrapor que “o relatório não capta «a qualidade do resultado educativo» nem garante que o sistema dota os alunos dos conhecimentos exigidos pelo mercado do trabalho”, registando-se que “Nuno Crato afirmou que o documento «esconde a realidade» e que o programa de qualificação de adultos tem «coisa boas» e «coisas feitas para as estatísticas»” (id.).

E coisas curiosas também, diga-se, como o caso de um aluno, oriundo de um curso Novas Oportunidades e que nunca fez o secundário, em poucos meses ter tido equivalência ao 12º ano e entrado num curso da Universidade de Aveiro com a nota mais alta do país com base apenas no exame nacional de inglês, o único que teve de fazer para se candidatar (JN, 24.9.11).

Aliás as “Novas Oportunidades”, recriadas pelo governo anterior em 2005, formataram-se antes como uma mera habilidade aproveitada por oportunistas, “compadres” e outros da mesma laia para ganhar uns tostões e terem no final um “diploma” sem a mínima correspondência a um real acréscimo de conhecimentos, cultura e saber. Mas, anote-se, diminuiu-se o número dos desempregados que durante uns tempos viram “escorrer” uns cobres e no final ficaram com um diploma !...

Não merecendo mais comentários tão propagandeada e política “habilidade” culto-laboral, temos sérias dúvidas sobre as “novidades” ou “novas oportunidades” congeminadas pelo ministro Álvaro Pereira para fomentar a economia ao apostar no “palavrão” POPH (programa operacional potencial humano) “para superar o défice de qualificações da população portuguesa” (CM, 14.9.11), visando “apoiar a promoção do conhecimento científico e da inovação como motores da transformação do nossso modelo produtivo, (...) estimular a criação e a qualidade do emprego” e a “qualificação de 2,9 milhões de jovens e adultos”.

Tudo num POPH a desenrolar-se num processo de formação para a inovação e gestão “concentrando perto de 8,8 milhões de euros de investimento público, dos quais 6,1 milhões são comparticipação do Fundo Social Europeu” (id.). Naturalmente dando azo a mais oportunistas, mais diplomas, mais burlas e a todo um mundo de espertezas saloias em que os portugueses se revelam peritos.

Aliás, isso das novas oportunidades, novidades e outras habilidades conduzem-nos para a problemática das novas mediocridades que ultimamente se vêm criando, alimentando e cevando com os ingressos nas universidades ... e todo o manancial de palhacices, patetices e demais diatribes universitárias que se desenvolvem e pululam por tudo quanto é cidade a pretexto da integração (?) dos novos alunos e da praxe.

Tendo-se vivido nos anos sessenta a praxe adoptada em Coimbra, é com profunda mágoa, e até alguma vergonha, que vimos assistindo ao ridículo, estúpido e por vezes desumano folclore da actual praxe (?!) académica que vem invadindo ruas, praças, jardins e mesmo certos centros comerciais, de todo em todo perturbando e ... chocando.

Uma praxe por norma a desaguar em estúpidos “discursos”, tolas “cantorias”, bacocas fantasias e cretinas “vozes de comando”, para já não se aludir aos atropelos às sensibilidade e dignidade humanas a que um qualquer “caloiro” tem direito.

Uma praxe que, anote-se, vem degenerando em incontornáveis estupidez, cenas ridículas e incomensuráveis perdas de tempo, vendo-se os ditos “doutores” em gritaria e vozes alarves de comando e os “caloiros” a cumprir e a obedecer aos parvos ditames de seus “algozes”. Que se revolvem e se enovelam num estúpido e alienado “gozo”, de todo alheados da má impressão e perturbações que causam, desassossego que criam e interrogações que suscitam.

Com um país em sérias dificuldades face a uma grave crise económica e social é doloroso e perturbador ver durante o dia, incomodando, multidões de pretensos “estudantes”, uns com testas e caras pintadas e outros “fardados” e “formatados” em brincadeiras estúpidas e cantares alarves, totalmente alheados dos estudos, de uma formação e de toda uma séria preparação para o futuro e para a vida. Será para isto que existem e se dão as bolsas? Para custear um estudo sério e responsável ou tão só para sustentar brincadeiras e ainda fazer face às despesas da noite em bares e boites, muitas das vezes a estender-se até ao romper do dia, como pudemos já constatar ?

Se nunca estivemos contra a autêntica “praxe”, que aliás nos acolheu e envolveu nos nossos tempos de Coimbra, é-nos extremamente custoso calar e aguentar os “abandalhamento” e “pantomina” a que se chegou, num desrespeito pelos mais elementares direitos e sentimentos da pessoa humana, afigurando-se-nos que hoje as universidades algumas vezes representam tão só uma “libertação” para muitos jovens perdidos nas famílias e na vida, sem respeito e amor próprio e sempre ávidos por uma liberdade que por regra vai desaguar num bar com mais ou menos cerveja e uns shoots de permeio.

O mundo e a vida universitária viveram e vivem épocas de mudança, sendo que o ensino se travestiu e Bolonha deu o golpe final ao ponto de os estudantes chegarem ao fim da “formação” sem hipótese de colocação, sem rumo e qualquer segurança de vida, sendo que até já um “mestrado” pouco ou nada representa em termos de acréscimo de saber e conhecimentos e pouco valor tem no próprio mercado do trabalho.

Aliás, afigura-se-nos que actualmente a ida para a universidade, frequentar um curso e obter uma licenciatura, o que antes era uma preocupação legítima e normal de qualquer estudante visando crescer na ciência, no saber e prevenir o futuro, transformou-se infelizmente num mero “estágio” para uma vida de devaneio, brincadeira, diversão, irresponsabilidade e mediocridade, a desenrolar-se numa estúpida e alienada fuga para a frente e para o desconhecido.

Daí que nos interroguemos se com as “praxes” e “sistemas” de actual ensino, e consequentes irresponsabilidades, não estamos já a caminho da figura “As Novas Mediocridades”, porquanto não se vislumbra na maioria dos estudantes um mínimo de interesse, preocupação, sentido das responsabilidades e ... consciência cívica.

Brinca-se aos “doutores” e à “formação universitária”, e amanhã, naturalmente, não vai haver “homens” para conduzir o país mas tão só uma cambada de medíocres, de interesseiros e de oportunistas cuja valência moral ou outra acabará por se desfazer e diluir ao ritmo da vida política e seus meandros, valendo e vencendo apenas a “formação” de parlapatório na universidade (!?) das juventudes partidárias, onde, diga-se, já vêm acontecendo “mestrados” e “doutoramentos”!...

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