Correio do Minho

Braga, segunda-feira

As aparências de um velho

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2018-07-24 às 06h00

Escritor

Autor:  Manuel C. Correia

As ruas da cidade estavam quase desertas. Um manto de nevoeiro inundava os prédios mais altos fazendo desaparecer pedras e calçadas num passe de magia natural! O frio emanava arrepios. O sol teimava em não furar a espessa camada de nevoeiro. Num pequeno degrau de uma escada de um recanto abrigado, descansava um vulto de um homem velho e bem encorpado. Com o seu velho sobretudo surrado e polido, o velho refugiava-se do frio. O relógio da torre da igreja mais próxima batia oito badaladas. Um dos poucos polícias fazia guarda ao Banco Central. Encostado junto à porta de entrada, parecia uma estátua quase imóvel, e digo quase porque apenas movia o pescoço no sentido rotativo horizontal. O velho olhava de vez em quando para a porta do banco e o polícia olhava para ele num jogo de faz de conta.
O relógio da igreja bate as oito e um quarto. O velho levantasse e estica o corpo, as articulações estalam revelando o desgaste dos anos passados. O polícia dá um passo fora do hall de entrada do Banco e concentrasse nos movimentos do velho, mal vestido de roupas velhas e gastas, como o seu sobretudo, um perfeito pedinte, um sem-abrigo. No céu o sol começa a romper timidamente o nevoeiro que se vai dissipando lentamente. O velho começa a andar no sentido da porta do Banco em passo apressado. O relógio da torre da igreja bate as oito e meia. O funcionário do Banco abre as portas e o polícia olha para a sua frente e vê o velho a dirigir-se rapidamente para o Banco, como se fosse um jovem de vinte anos! O polícia saca da sua arma e corre para o velho e neutraliza-o, levando-o para a esquadra. O jogo do faz de conta é agora um jogo a contar, o polícia tinha neutralizado um assaltante, era de louvar e pensava ele que era motivo para ser promovido. Afinal um velho mal vestido não tinha motivo para entrar no Banco Central, a não ser para o assaltar.
Quando chegou à esquadra todos colegas ficaram admirados, afinal não era todos os dias que naquela pacata cidade se prendia um assaltante! Os colegas murmuravam o feito e alguns até mostravam rasgos de inveja. O chefe deu-lhe os parabéns, a euforia era tanta que já havia quem quisesse brindar com uma bebida! O velho apesar de tudo mantinha-se calmo, sempre com a mesma expressão facial: de quem conhece o mundo e sabe o que quer.
Quando se preparavam para prender o velho numa cela, sem que fosse feito o devido interrogatório, o velho calmamente perguntou:
- Mas afinal porque me estão a prender?
Foi uma risada descomunal, até o chefe se riu.
- Sim volto a perguntar o que é que eu fiz para me prender?
O chefe olhou para o velho e a fazer um esforço para conter o riso e disse:
- Então você ainda pergunta porque está aqui? Devia ter vergonha um homem com a sua idade querer assaltar o Banco Central, ou é muito estupido ou não tem amor à pobre vida que deve levar.
O velho olhou para o chefe e respondeu:
- Com o devido respeito o senhor não sabe quem sou?
Foi a segunda risada, mas agora até lágrimas alguns brotaram de tanto rir.
- Não me diga que é o presidente da república e eu não sei! Respondeu o chefe em tom irónico.
- Não sou presidente da república, sou apenas um cidadão comum, de nome José Soares. O velho começava a ficar irritado.
- Então senhor Soares, mas não o presidente da república, porque esse senhor conheço e não andava assaltar bancos como o senhor, até podia fazer os seus roubos como a maior parte dos políticos portugueses fazem, mas então diga-me o que ia fazer ao banco neste estado, de roupas velhas?
O velho olhou para ele e sem hesitar respondeu:
- Depositar o meu dinheiro.
Terceira risada, mas agora ainda maior que as duas anteriores.
O chefe não parava de rir, e um dos guardas até teve que o agarrar para não cair ao chão!
- O senhor é o assaltante mais cómico que já conheci.
O velho agora já estava irritado, e já com o tom de voz autoritária respondeu:
- Eu estou a perder o meu tempo aqui a ouvir tantas asneiras, para acabar com este mal-entendido só peço que ligue para o gerente do Banco e pergunte se conhece o José Soares.
- Mas acha que vou chatear o gerente do Banco Central por causa de um pedinte como o senhor?
- Já lhe disse que não sou pedinte, e senão quer ligar ao gerente, como tenho direito a uma chamada, serei eu a ligar.
O chefe olhou para ele e já com ar de quem não tinha tanta certeza, levou o velho para o seu gabinete.
- Para que não seja acusado de ser intransigente, vou fazer a tal chamada para o gerente do Banco Central. Pegou no telefone e marcou calmamente os números, esperou breves momentos e do outro lado o gerente:
- Estou
- Daqui é o chefe da polícia, desculpe estar a incomodar
- Nem pense isso chefe é um prazer falar consigo, mas diga o que precisa de mim, até parece que viu um fantasma?
- É apenas que me tire uma pequena duvida, o senhor conhece um senhor assim mal vestido, de roupas velhas, um sobretudo gasto e polido, que se chama ou diz que se chama, José Soares?
- Se conheço? É o nosso melhor cliente.
O chefe já gaguejava
- Masss teeem a certezaaa, ele pareceee um pedinte!
-Chefe traga já de imediato esse homem, ele é mais rico que a cidade inteira.
O chefe tinha agora um semblante de homem que mais parecia ter sido atropelado por um camião, e de voz arrastada olhou para o velho e como se os testículos lhe tivessem caído ao chão pediu as maiores desculpas, suplicando clemencia.
De imediato um carro da polícia levou o senhor José Soares até ao Banco Central e para que se certificassem que era mesmo ele, um dos polícias acompanhou-o até ao gerente, um cumprimento entre os dois foi o suficiente para que a esquadra da polícia tivesse um certificado de incompetência.  

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