Correio do Minho

Braga, sábado

Abril, Livros e Memórias

Investir em obrigações: o que devo saber?

Voz às Bibliotecas

2016-03-31 às 06h00

Aida Alves

O mês de abril evoca historicamente, no nosso país, a passagem de um sistema de governo autoritário para uma democracia. De facto, foi com a chamada “revolução dos cravos”, cuja efeméride se comemora a 25 de Abril, que o nosso país acordou para a liberdade.
Para trás ficaram todos os constrangimentos típicos de uma ditadura, nomeadamente a Censura. A Censura que, na palavra escrita, assumia o nome de ‘Lápis Azul’, porque era, efetivamente, com lápis azul que os censores, cortavam as partes do texto não autorizadas para publicação ou divulgação.

O propósito era não só impedir os leitores de pensarem de forma progressista, mas também de os impedir de se aperceberem da realidade vigente no país e no mundo. Assim, era cortadas palavras, frases, parágrafos e mesmo textos completos que, na óptica dos censores, nos impelissem a pensar livremente, libertados do espartilho da ditadura, nas suas vertentes política, de bons costumes e da religião. Tentava preservar-se a aparência em detrimento da realidade e por outro lado, tentava-se obter mentalidades acomodadas ao regime, através da manipulação de ideias, comportamentos e consciências.

Não se permitia pensar diferente, e os cortes eram, por vezes tão completos, que a ideia de um livro, filme, peça de teatro ou outra forma de transmissão cultural, ficava totalmente desvirtuada, tal era o nível de amputação sofrido.
No meio deste contexto castrante de ideias, surgiam vários tipos de dissidentes. Havia os que publicavam clandestinamente, arriscando a vida no processo de produção dos seus textos, na sua impressão e distribuição.

Corriam sérios riscos também os seus leitores, pois a censura não se esgotava na pré-publicação, mas abrangia também os leitores. Era proibido ler o que não estava autorizado pelos censores. Mas havia também os que, de forma mais rebuscada e inteligente, conseguiam passar mensagens, ditas subversivas, pelo crivo do censor. Tal conseguia-se, em virtude do maior engenho intelectual do autor que, com habilidade, conseguia ludibriar o censor e fazer passar em mensagem ou ideia como se de uma ideia autorizada se tratasse.

Era um tempo, portanto, de lutas e engenho e onde a simples distribuição ou publicação de um panfleto ou livro exigia, por vezes, uma série de manobras arriscadas, com vista a passar uma ideia intacta, sem sofrer deformação por parte do Estado.
A Censura foi considerada o meio mais eficiente de repressão, pois muito contribuiu para manter o regime ditatorial mais de quatro décadas sem alterações estruturais.

Com a Revolução dos Cravos, no dia 25 de Abril de 1974, a Censura foi derrotada e conquistou-se a Liberdade de Expressão. Esta liberdade. Como qualquer outra, implica também responsabilidade. A responsabilidade de transmitir algo de válido às gerações vindouras e ajudar o homem moderno no seu processo de formação de uma consciência individual e coletiva.

Assim, em Abril, comemora-se no nosso país, a conquista de vários tipos de liberdade das quais destacamos, nesta crónica, a liberdade de produzir, fomentar, distribuir e usufruir de qualquer tipo de manifestação cultural, seja na palavra impressa, na música ou na representação. Saibamos sempre merecer esta liberdade conquistada e saibamos que o que hoje nos parece natural e adquirido foi alvo de uma conquista mais ou menos laboriosa.
Boas leituras em Abril, com livros e memórias.

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