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Ideias

2018-10-27 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Ainda não foi eleito, mas está mais perto do que a sensatez o aconselharia. – Quem? Bolsonaro, naturalmente. Como a realidade no lo mostra, é fácil criar uma vaga de fundo, é fácil escapar ileso sob a capa dos pecados alheios, reais ou puramente fictícios. Sim! É fácil saturar o ar de poeiras que turvem as vistinhas, olhos que nem precisam de estar abertos, posto que alucinam de fora para dentro. É fácil ganhar auras de herói, a tanto basta ressuscitar de um assassínio que o não foi.

Contentemo-nos com a boçalidade brasileira. Digamos que é coisinha que cá não aconteceria, já que somos Europa, já que dormimos no cetim dos bons costumes, do bom senso, que ceamos com o progresso à luz de velas aromáticas. Façamos de nós, dos nossos vizinhos e familiares, exemplos acabados de ponderação. Digamos que a desinformação é erva mal medrada, rasteira, que existindo até entre nós, não tem senão expressão residual, e que não há decisão que tomemos que não assente em factos verificados sem margem para dúvida. E, de documentário australiano, recordo eu a prodigiosidade de cãozinho ou dois, de como encasulam eles rebanho de centenas de carneirinhos testas-duras, à força de latidos e correrias, uns dias para a tosquia, outros para o abate.

Esqueçamos os anos trinta, com Hitler, Mussolini, e quem queiramos ajuntar. Concentremo-nos nas minhoquices do dia-a-dia que nos impingem, nas escandaleiras “dos outros” que nos servem em bandeja niquelada, ao mesmo tempo que, com passe de mãos, nos escondem a marosca da véspera. O povo que acreditava no céu e no inferno somos nós, mudamos apenas de anjo e de demónio. Continuamos a ignorar o presente, a desconsiderar a história; continuamos a entregar a cultura aos porcos. Continuamos a achar que a mentirinha ministerial é um condimento, que as fanfarronices de primeiro-ministro são décor e mise-en-scène. Pegamos neste ou naquele em andor, pelo sound bite, pelo trocadilho industrioso de quem destroca a nota graúda da incompatibilidade ministro-lobbyista, pela compatibilidade frutuosa de três decénios de conúbio arrulhado de pombinhos. O sound bite é primo-irmão da fake news; o enfant terrible do partido A ou partido B, que solta umas larachas com zero de dialética positiva e com mil de retórica ou parábola gongórica, é o ajudante-de-campo de ditadorzeco que em paz leveda na masseira.

Os brasileiros castigam o PT: Lula é o PT! Os brasileiros alçam um Bolsonaro, limpo entre os limpos, lacado de soluto anti-corrupção. Os brasileiros endeusam um Bolsonaro, a quem doravante rezarão, para o pleno das curas, para a totalidade das soluções: vem, Bolsonaro, salva-nos! Parece bruxedo.
Saem, os bolsonaros, das fábricas de promessas falhadas dos líderes consensuais. – Emprego? – Arranjamos! – Habitação? – Construímos! E mais educação, e mais saúde, e mais tudo o que o cidadão sabe que existe, mas nunca viu. Quem não sonha com uma vida decente? Todos nós!

Fixemo-nos no Portugal dos pequenitos: aqui-del-rei que não há casas. Sejamos honestos: não há casas vai para uma porrada de anos. Foram-se fazendo e comprando, mas nunca na perspectiva do cidadão. Multiplicaram-se as urbanizações, por ser um bom negócio bancário, porque era uma forma impecável de angariar impostos. Em Portugal, a necessidade é negócio, e governo rima com stand de vendas. Governa-se em nome deste ou daquele negócio, em favor deste ou daquele grupo empresarial, e a gratificação vem por inércia, apanhada em voo, para não cair ao chão e resvalar para a sarjeta.
Bolsonaro há-de ser igual a Lula, e um destes dias chegaremos nós a um Bolsonaro. Nosso.

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