Correio do Minho

Braga, terça-feira

A raiz do conhecimento somos todos nós: o encanto das palavras

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Voz às Bibliotecas

2016-02-04 às 06h00

Aida Alves

Recolhemos muitas histórias, memórias individuais e coletivas pela através dos cinco sentidos, da oralidade, pela via dos desenhos ou da palavra escrita, desde que nos conhecemos como homens pensantes. Certamente é essa matéria que muitos contistas, investigadores, cientistas, escritores, ilustradores, criativos da mensagem, recriam nos seus discursos, em diferentes línguas e formas de expressão.

O cérebro, o espírito e as palavras acompanham-nos desde sempre. Há uma certa magia, fantasia, liberdade neste ato do comunicar as palavras, escritas ou ilustradas. Segundo Gramsci, filósofo italiano contemporâneo, 'não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque pensar é próprio do homem como tal'. Isso significa que as questões filosóficas fazem parte do quotidiano de todos nós. Todos nós somos filósofos, no sentido mais amplo, porque todos temos a capacidade de pensar e de recriar naturalmente, citando as fontes, ou improvisando de alguma forma leituras realizadas durante todo o nosso percurso de vida.

As experiências de vida, a proximidade do sofrimento, a liberdade do pensamento, o conhecimento profundo da condição humana, propiciam a escrita e o registo.
A vida humana processa-se por ciclos. Por isso está dividida em unidades temporais, tais como as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos. Estas unidades temporais facilitam a percepção dos ciclos e articulam-se com os nossos próprios ciclos naturais: a circulação sanguínea define um ciclo, a respiração define outro, a digestão define outro e por aí adiante.

Os ciclos permitem-nos sentir que há sempre um recomeço. Na prática, os ciclos têm apenas esse fim, fazer-nos sentir que há sempre a possibilidade de recomeçar. Quando algo corre mal a meio de um ciclo, sabemos que outro ciclo se inicia de seguida e há sempre uma nova oportunidade para fazer melhor. No final de cada ano encerramos um ciclo. E outro ciclo se inicia, o novo ano. Comemoramos a chegada do novo ciclo com uma festa, pois a transição de um ciclo para outra representa uma oportunidade de fazer mais e melhor, de inovar ou de simplesmente mudar.

Saibamos fazer a síntese crítica do ciclo que agora se encerrou e perceber o que correu menos bem e podia ter corrido melhor. Nem tudo o que foi mau dependeu de cada um de nós individualmente. Em muitos casos, fomos empurrados para situações angustiantes, sem culpa própria.

Que neste ciclo que agora se iniciou, o novo ano de 2016, cada um de nós faça o que puder pela cultura quer da palavra quer da imagem. Que cada um de nós seja um agente cultural activo e não apenas um beneficiário passivo da Cultura produzida por outrem. Umberto Eco escreveu que o século XXI seria o século da palavra, por oposição ao anterior, marcado pela ascensão do cinema, da televisão, da imagem, ocorrida no século XX. O certo é que a produção e leitura da informação, a produção da palavra escrita, nunca se disseminaram tanto como agora, em diferentes contextos, redes sociais, emails, blogues, sites. Há um maior desafio e mais dinâmicas de criação, reprodução, comunicação. A palavra e o seu criador, assumiram uma maior liberdade no ciberespaço.

A cultura da palavra e da imagem em processo dinâmico não vive sem criadores e sem consumidores. É importante que cada um se empenhe na produção dos processos de criação e comunicação. Em si, cada fenómeno cultural é também um ciclo e o consumidor/espectador ocupa uma parte deste ciclo. E como em qualquer ciclo, é impossível atribuir uma importância maior ou menor a cada um dos momentos intermédios.

Assim, façamos todos parte de ciclos culturais, contribuindo para a sua produção, a sua divulgação, assistindo e absorvendo.
Um bom ano de 2016, a cultivar em rede a palavra e a imagem e sejamos todos a raiz do conhecimento presente, vindo de um passado, a caminhar para a consolidação de um futuro.

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