Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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A Lógica do Poder

Muro de Gelo

Ideias

2013-12-12 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A revolução de 74 foi realizada por capitães: quem encabeçará a de 2014 - os sindicatos doutrinários afectos à CGTP? Nos últimos dias de Novembro tivemos a reportagem em cima da hora dos pedidos de audiência ruidosos em quatro ministérios. Além da afronta, ao Governo preocupou o secretismo da preparação e a exemplaridade da acção.

Como entender a operação: como uma manobra singular de força, ou como o tiro de partida para a desobediência civil? Iludido por um poder fictício, o Governo acha que um destacamento de 20 polícias em cada ministério previne desmandos ulteriores. Pura ilusão - não há efectivos que protejam todos os edifícios e repartições. E as incursões nem precisam de terminar em pilhagem e devastação, bastando que importunem, a exemplo do incauto cidadão que pede o que lhe devem à porta duma sapataria.

Gandhi preconizou a resistência passiva e a desobediência civil. Como sabemos, sem armas construiu uma revolução. No percurso, muitos dos nacionalistas indianos foram barbaramente espancados e assassinados, extremo a que não chegaria nenhum governo da actualidade no quadro da União Europeia. Havia mais a perder na tomada do Muro de Berlim, mas a ordem para disparar ou conter à força não foi dada.

Pode obstar-se que não se reprimiu uma revolução no sentido conveniente, mas que não passará incólume uma sublevação que corra ao arrepio dos interesses do grande capital? Bem, há vinte e tal anos atrás ainda se vivia o idílio de que o capitalismo era intrinsecamente bom, contra um comunismo demoniacamente mau. O comunismo acabou, o vilão vermelho já cá não mora. E eis o que o capitalismo nos serve ao pequeno-almoço!

Uma evidência trespassa-nos o espírito: o modelo económico e social capitalista existe em Portugal tanto como na Suíça, Bélgica ou Dinamarca, países onde não se vivem as amarguras que por aqui se conhecem. Afinal, uma insurreição pode não ser contrária ao curso civilizacional, quiçá um evento redentor. Talvez o capitalismo não seja mau, talvez se limite a ser o que somos para nós próprios. Talvez o capitalismo não seja nada, talvez não tenha cor ou matiz. Talvez seja um espelho absolutamente neutral que reflecte desinteressadamente uma figura, seja ela opulenta ou andrajosa.

Rebelião, bélica ou pacífica: para quê? Acaso não são convocadas regularmente eleições, livres, universais, pacíficas? Acaso não nos é dado escolher em consciência? Teríamos como melhores governantes os saídos dum levantamento popular ou armado, do que aqueles que empossamos com a delegação do nosso voto? Que o sistema parlamentar, - pelo menos o nosso -, faliu! Que as organizações partidárias elaboram listas restritas que não acolhem os melhores, os mais diligentes! Que, no fundo, os partidos não se regeneram nem estipulam normas protectoras que afastem do exercício do poder os indivíduos duvidosos em carácter e objectivos!

Será uma particularidade muito nossa que o regime em que vivemos falhe naquilo que constitui o seu primeiro e mais relevante desígnio - o de governar em favor do povo, protegendo exaustivamente o interesse colectivo? O resultado está à vista - apenas 9% dos portugueses confia nos partidos políticos. Como é que se constroi vida com quem não se acredita?

Passa a ideia que nas sociedades avançadas não há espaço para convulções, senão as ocasionais, consentidas e de efeito restrito, a exemplo do que sucedeu em França em 2005. Entre nós, paralelamente, podemos pensar que um levantamento contra o regime não chega sequer a ser uma hipótese académica, já que não há extremismo consolidado à direita, nem uma deriva ideológica das forças militares.

Outros se lembrarão, sobretudo, da ostentação dissuasora do USS Saratoga nos idos de ’75. Imaginava-se, dentro e fora de Portugal, a instauração dum estado socialista como dimanação legítima da Revolução de Abril. Com um porta-aviões fundeado no Tejo, bem em frente ao Palácio de Belém, a NATO deu a entender que nos deixaria brincar às sociedades sem classes, mas desde que não pisassemos muito a linha.

A ilusão durou até Novembro, até ao limiar duma guerra civil em que as forças da esquerda operária não embarcaram. Em suma, a esquerda que não tomou este curso antes, também não se sentirá muito inclinada a segui-lo nos dias de hoje.

Assim vistas as coisas, o rallye pelos ministérios e o corre-corre pelas escadarias de S. Bento poderão não passar de mises en cène para arrefecer a sanha reformista do Governo. Em todo o caso ficam os precedentes. Quanto à substância, o Poder tanto se conquista nas urnas como na rua, ainda que indirectamente, e uma situação objectiva de revolução existe sempre que o poder legal perde a faculdade de se fazer executar. Ora disso podemos estar nós perto.

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