Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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 A lenda

Artistas que Monserrate viu nascer

Conta o Leitor

2019-08-13 às 06h00

Escritor Escritor

Manuel C. Correia

A floresta bebia das águas do rio Cávado. Os sons da floresta fundiam-se com a corrente das águas cristalinas, batendo entre rochas polidas. Os peixes serpenteavam entre margens, debaixo do olhar atento de um jovem de baixa estatura. O brilho do sol reflectido nas escamas dos peixes, quando se viravam, criava luas submersas de luar intenso. O jovem olhava para os peixes como ouro e não apreciava o momento de rara beleza. Empunhando um pau com um pedaço de ferro bem afiado na ponta, uma espécie de lança. Concentrava-se no maior dos peixes, o maior que alguma vez viu. O coração batia forte, o peixe parecia ouvir o seu bater e não se chegava à margem, o jovem de cabelo preto e comprido, acalmou e controlou o seu ritmo cardíaco, e susteve a respiração, ficou imóvel, o peixe começou por se aproximar lentamente, voltou a dar a volta para longe da margem, e o jovem imóvel! De repente um vulto se aproximou da margem como se fosse um tubarão, um grito de glória e motivação fez disparar a lança que, trespassou o peixe, o jovem estava eufórico e festejava como um louco, o peixe era um corpo inerte, a ser puxado para a margem, por uma corda feita de vime. Mesmo inerte, morto e na água o seu peso era considerável e o jovem puxava-o com dificuldade. A um metro da margem, o peixe já não escapa, pensou o jovem. Num último suspiro da morte o peixe deu um salto tal que o jovem caiu ao rio! De euforia total, o jovem passou a angústia total, as águas não têm cabelos para quem não sabe nadar. O peixe estava morto e descia o rio, o jovem lutava como um louco nas águas do Cávado, desceu e subiu e por último desceu até ao fundo do rio, levando consigo as memórias de uma vida, sem antes apelar à Deusa dos rios e da água, Nabia.

Do fundo do rio o corpo do jovem começou a subir como se a água fosse feita de cordas que, puxaram o corpo do jovem até á margem. Deitado na margem sobre a relva o jovem começou por abrir os olhos e vomitar uns bons litros de água. Ao seu lado estava uma bela jovem de cabelos compridos, uma autentica Deusa. O jovem Idico ainda atordoado, olhou para a jovem e perguntou:
- Estou no céu? Só posso estar no céu! A jovem com o seu sorriso de brilho intenso, respondeu:
- Não estás no céu, mas as tuas preces valeram-te a vida.
- Mas quem és tu? Que tal beleza nunca vi noutra mulher e se as minhas preces foram dirigidas á Deusa Nabia.
- Eu sou a Deusa Nabia.

Idico não queria acreditar! Curvou-se em agradecimento, e, repetiu várias vezes dizendo obrigado, até Nabia a Deusa dos rios e das águas o parar com um toque das suas mãos no seu rosto. Naquele momento Idico sentiu as mãos da Deusa, um toque de vida, suave, e Nabia, apesar de Deusa teve um sentimento único ao tocar Idico. O seu coração batia como nunca, batia forte, não conseguia controlar o seu ritmo cardíaco. Idico, prometeu que a sua vida seria dedicada a Nabia. Os dois estavam frente a frente como duas estátuas. Os raios do sol iluminavam o quadro de Nabia e Idico. O vento soprava nos cabelos de Nabia tornando-a ainda mais bela. Idico atreveu-se a dizer que, nunca tinha visto uma mulher tão bela e de seguida pediu desculpa pelas palavras, afinal era uma Deusa, que o salvou. Nabia por sua vez respondeu que, já tinha salvado muitos homens, mas nunca nenhum como ele, que o seu coração queria dizer algo, que Idico era belo como um Deus. Por momentos Idico voltou a pensar se estaria morto e se estivesse nada mais de mal podia acontecer, e, aproximou-se de Nabia, atrevendo-se a colocar a sua mão direita no rosto, depois a esquerda, de seguida as águas do rio Cávado pararam e, os lábios de Idico e Nabia juntaram-se numa dança sem fim. Dois corpos despidos rolaram sobre a erva fresca, ao som dos pássaros que cantavam uma música dos Deuses. Quando finalmente a dança acabou, as águas voltaram a correr, e num ápice Nabia desapareceu!

Durante muito tempo Idico voltou ao mesmo lugar na esperança de ver o seu amor, e sempre em vão. Durante esses longos meses Idico esculpiu a imagem do seu amor, uma fonte aonde todos os dias a via, como a água que corria. Foram nove e longos meses, Idico não falhou um único dia, sempre na esperança de voltar a ver o seu amor. No último dia desses nove meses, a noite estava prestes a chegar e Idico levantou-se para voltar para casa, quando, as águas do rio pararam e uma luz radiante apareceu vinda do fundo. Era tão brilhante que Idico desviou o olhar para não ficar cego. Foi tão breve que quando ouviu as águas a voltarem a correr, virou-se e, não queria acreditar! Nabia, era ela a Deusa o seu amor, a sua salvadora. Finalmente o reencontro tão esperado. Abraçaram-se infinitamente. O sol deu o seu último brilho enquanto os lábios se cruzaram, num beijo intenso e longo. Nabia estava feliz, mas havia algo que a perturbava e Idico mesmo eufórico reparou que algo se passava. Numa pequena alcofa dormia um recém-nascido!

-Este é o nosso filho. Idico ficou ainda mais feliz, estava a transbordar de felicidade que não se conteve.
- É lindo, um belo rapaz, sou o homem mais feliz do mundo. Mas a felicidade não é eterna e Nabia voltou a falar.
- O meu pai não me deixa ficar com ele, por ser filho de um mortal. Nem posso voltar a ver-te. Ao dizer isto, Nabia chorava e Idico não se conformava. Deram o seu último abraço e despediram-se em lágrimas. Uma despedida forçada de corações destroçados.
Idico ficou sem o seu amor, mas ficou com um filho que seria meio deus meio mortal, o maior guerreiro que alguma vez o povo Bracaro viu, o grande Nabio Bracaro.

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