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A grua

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A grua

Ideias

2019-03-31 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Este é todo o destino a que temos direito, o paraíso é aqui, paredes meias com o inferno, um dentro do outro, tanto que nem sabemos onde estamos, e não adianta pedir informações – diz, cada um, o que lhe vem à ideia, enganando-se ou ludibriando o parceiro, ingénua ou malevolamente.
Fés que não combato, no entanto, esperanças que a ninguém subtraio: um Além que haja, e na continuidade deste presente se acha. Nula novidade, que outro tanto apregoam os credos salvíficos. Apenas a topografia preciso, o misticismo abrogo, as cortinas corro, deixando em aberto a boca de cena, o palco temporal em que somos actores e público, estrelas e figurantes, encenadores e desenhadores de luz e sombra. Os profetas somos nós, salvamo-nos por nossas mãos e pés. E somos a serpe de nós próprios, e de terceiros, que por desdita arrastemos. O pomo apetecido, esse, não é o da ciência, mas o da estupidez, o do perfumado entorpecimento: come e serás feliz, meu belo adormecido.
Navego no mar interior da simbologia, preguiçosamente, como quem rema para dentro, em hora mansa, no lago-fantasia do Bom Jesus. Cai-me no olhar uma inauguração, sei lá, uma bênção: eis que António Costa empresta a sua ilustre figura à exaltação de um plantio de figueiras-da-índia, na freguesia de Alcaravela, termo do Sardoal. Pensado, não teria calhado melhor. Até o nome do recanto esquecido nos recoloca na gesta das descobertas – plantinha exótica, que há-de dar frutos, não sabemos para que palatos sedentos de sabedorias, mas que, no imediato, integra miraculosa faixa corta-fogos. E não tivéssemos, entre os recursos autóctones, com o que afrontar a questão. Costa distribui elogios, eleva gentes e espécimes herbóreos, enaltece um governo que leva a sério a floresta: a sério? Saberão, ao menos, que a Índia que o cacto evoca é outra, a do Colombo, não a do Gama?
Notícia vai, notícia vem: os professores que desfilam em defesa da boa aritmética, o Nogueira que brinca com os números, dizendo que aquilo vale dois eurodeputados. Um cortejo raro, como sopa de convalescente. Uma panorâmica do Terreiro do Paço com muitas clareiras. É o noticiário do canal 1. Nem sei se a manif foi um sucesso, mas estou em crer que os figos-da-índia ficaram por cima em tempo de antena.
Terei desmaiado, entrado em transe? Lapso de que não dou acordo, até que me salta o Carlos César. Grito: César, César, porque me inquietas? Que mais trabalho deu ao PS a oposição dos aliados, lavra em acta, do que a oposição do rival. Costa que nos braços de Rio veraneia, César que Negrão leva a banhos, extraindo-lhe impaciências e finos de voz. Terno governativo que vera face assume, compadres malcasados que Cérbero ruim são, cabeças assanhadas que se mordiscam, arrancando pedaços periféricos, que cicatrizam sem mácula, enquanto o entertainer revigora ânimos: nova corrida, nova viagem! Se a Índia, Índia não é, quem barrará a animosidade intrínseca de aliados? É bonito, é dialéctico, é marxismo aplicado.
E assim se percebe, porque é que nem o BE nem o PCP estão no Governo ou em cozinhas conexas – no fundo, não são amigos do Costa; no fundo, falham o critério essencial da competência de Estado. De facto, não há como a parentela e grande amizade para evitar o banzé, como o conforto do olhar cúmplice que se desvia, para contornar reparo que constranja observador e observado.
O inferno e o paraíso são as andanças do dia-a-dia, como as fazemos, ou como aceitamos que no-las sirvam. Para quando uma República de pote de ferro, espartana, sem tachinhos, sem as cataplanas da moda? Sem gruas selectivas.

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