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A felicidade

Da utopia à distopia – o ‘brexit’ precisa de Portugal

A felicidade

Escreve quem sabe

2019-09-07 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Afelicidade não é transmissível nem fixável em receita digna de crédito. Tampouco nos impressiona com imagem fidedigna que possamos reconhecer, uma vez expostos à coisa em si, por graça fugaz. Quem escolhe ser infeliz, assim mesmo, por motivação formante, por idiossincrasia de carácter? Se tantos – todos! – a ela aspiram, por que é que de tão poucos aceitamos a confissão veraz de que a tenham atingido? E quão mais desditoso é o que nunca a encontra, do que aquele a quem ela se lhe escorre de entre os dedos?
Procuramos de ouvido, por decalque e aproximação, algo que deveria ser essencial, da natureza de um braço, de uma glândula, algo que deveria estar lá e acompanhar-nos ao longo da vida. Concedo que pudesse conhecer eclipses, oscilar entre baixos lodosos e cumes de roçar os céus, mas que de tal sorte fosse que um procedimento analítico banal prevenisse o mais tacanho e distraído, alertando-o para a disfunção ou dispraxia, determinando-lhe dieta rica na molécula deprimida, ou purga correctora.

Procuramos sem critério absoluto nem linha de meta, aceitamos sugestões, opiniões, conselhos, que jamais poderão servir-nos, por definição, posto que em tudo somos individuais, irrepetíveis: se nos marcam ao longe pela plástica do andar, se nos desmascara o timbre da voz e o anedótico de um espirro, por que bênção os caminhos do nosso mentor e confidente haverão de valer para nós? E orbitará, ele ou ela, nesse empíreo, como atesta, ou a esmo erra, tanto como nós?
Nunca somos o que esperam de nós, nunca as circunstâncias estão afinadas milimetricamente com as nossas aspirações, nem seguro é que saibamos exactamente o que nos convém. Vogamos de motor gripado e leme contrário, segundo rota de nula evidência: acaso o ontem nos assegura onde estaremos amanhã?

Desconhecerei eu que somos dotados de consciência, capazes de reflexão, de que podemos estar à altura de introduzir correcções, de fazer acontecer algo e o seu contrário? Não! Mas a consciência tem essa estranha particularidade de ser instância bicéfala, da alteridade decorrendo a condição fundante do «eu». Precisamos do outro para sermos nós, e tão frequentemente o outro ensaia reduzir-nos a serviçal seu ou a polígono de testes. É assim nas vidas particulares; é assim em sociedade, no geral. Tudo valemos como peanha, amparo ou voto, e nada como humanos em construção, duplicidade que os discursos virtuosos refutam, evidentemente.
Seremos empoladamente felizes nos processos finitos de procura, tanto como desencantados e infelizes, quando baça se torna a imagem no espelho que constituímos, e rupta pouco mais tarde? Sucumbo ao peso das perguntas e, nenhuma solução aportando, deixo que o fascínio dos Xutos me inverta o sentido de marcha com um «às vezes», tema que elevo a trilha sonora da presente crónica.

Muita canção lamecha glosa a felicidade, por banda de quem a exalta, de quem a conheceu ou vive, de quem não lhe chegou às faldas e a ela aspira, centrada ou não no amor, eventualmente na liberdade, na negação de tabus ou preconceitos. Sucinta é a dos Xutos, cristalizada em simples locução – uma palavra que, às vezes, tudo muda. Súbditos da palavra, de uma palavra capaz de mudar o rumo de um universo, eis quem nós somos. E com que sobranceira displicência não tratamos nós a palavra no dia-a-dia!
Precisamos de palavras, mais do que medicamentos, quiçá de poesia mais do que de terapias. Precisamos que as palavras vivam nos nossos lábios, de aproximação em aproximação. Precisamos de palavras que nos surpreendam.

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