Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A escola do porta-lápis

Trade-offs

Conta o Leitor

2018-07-29 às 06h00

Escritor

Autor: Barros Oliveira

Era uma vez um lápis de pau, com ar avermelhado, chamado Varito que vivia num estojo feito de cartão velho. Frequentava a escola numa pequena aldeia do norte de Portugal. O seu grande sonho era um dia ser um grande artista e fazer desenhos a carvão que toda a gente admirasse. A sua escola ficava num monte mas para lá chegar era necessário caminhar a pé algumas horas. Mas valia a apena, pois a paisagem era muito bela: era tudo muito verde, desde a erva às árvores e lá ao fundo, tudo azul, espelhados pelo rio e pelo céu. O Varito ficava ali sentado numa pedrinha apreciando aquela beleza da natureza e desenhando tudo o que via. Só parava quando por ali passava o carro da menina Luísa del Plata, a caminho da velha escola, levada pelo seu motorista, um velho lápis com ar aprumado. Claro que ela fingia não o ver, parecendo distraída a ler um velho jornal que estava no carro havia muito tempo. Mas via-o, embora não o demonstrasse.
A escola era frequentada por lápis de todos os tipos e feitios, canetas de plástico e de metal barato. A professora era a D. Bica, velha caneta de plástico, onde se lia “Comigo aprendes a escrever”. Vestia-se de vermelho e as suas aulas eram sempre muito divertidas pois contava sempre as histórias que escrevia nos tempos livres.

Quando o lápis de pau chegou à escola, já a professora estava à porta a saudar os seus colegas que acabavam de chegar.
- Bom dia! – sorria, encantada por os ensinar mais um dia.
- Bom dia, senhora professora Dona Bic! – respondiam também eles felizes por ali estarem.
Todos se sentaram nos seus respetivos lugares. Na fila da frente ficava a Luísa e lá ao fundo, num canto, o Varito. Os outros sentavam-se junto dos seus amigos de brincadeiras.
A aula ia começar. A professora começou a falar do corpo dos humano. Abriu um mapa muito velho e um pouco rasgado, onde se via o coração e as veias do corpo humano. Metia medo só de olhar pra aquilo.
- Ora bem…hoje vamos falar do corpo do homem…
- E da mulher! – tossiu a caneta de feltro, mais conhecida por Borrona.
Todos se riram…mas a professora olhou-os asperamente e todos se calaram…
- Não olhas para o mapa, Luísa?-perguntou a professora à Luísa, a bela e rica caneta de prata.
- Ó senhora professora, eu tenho medo de olhar. É horrível, cruzes. Parece que mataram alguém. Ai minha nossa…ui…!
- Ó Luísa, isto é o que os homens e mulheres são por dentro. Por fora é só roupinhas bonitas, base na cara, laca no cabelo e perfume mas lá por dentro são todos aquilo que não queres ver…
- Pois, mas não gosto de ver…Faz-me impressão!
- A tipa é mesmo esquisita! – disse entre dentes o Manel da Picareta, um lápis mesmo magro e narigudo.
- Bem, como dizia… isto é o corpo humano. Aqui fica o cérebro que é esponjoso e faz as pessoas pensarem, agirem, enfim é o que distingue os humanos dos outros animais…
- É aquilo que tu não tens, ó Zé Descabeçado! – riu-se o lápis n.º 2, o Staler, filho de emigrantes alemães ao lápis de pau Molinho.
- Olha quem fala! – Ai tu és muito esperto. Ainda ontem deste vinte erros no ditado!
- Bem, mas eu sou meio alemão e baralho-me todo. Lá em casa a mãe fala português mas o meu pai fala alemão…É uma confusão dos diabos. Até o Bobi ladra em pretoguês…
- Isso são desculpas.
- Lapinhos, silêncio! Ai…Ai…ora o sangue sai do ventrículo esquerdo pela artéria aorta e vai a todo o corpo…é a grande circulação!

Entretanto ouviu-se uma velha campainha a anunciar a hora do intervalo.
- Ora, vamos lá à circulação - dizia o Pedro, um lápis novinho em folha, ainda com a cabecinha vermelha mas um pouco gago– O Pedro sai da sa..la pela po…rta esque…rda e vai xixizar lá fora na bou..ça.
- Ui, que mal educado! – disse a caneta cor-de-rosa, a Rosita, toda altiva e com os lábios pintados de tanto molhar a boca com o bico da borrona vermelha.
-É mesmo! Que tonho! –gemeu Cristaleira, a caneta preta bic.
Todas as canetas e lápis se divertiam no recreio.
A velha professora aproveitou para apanhar um pouco de sol.

Entretanto, entrou um cão vira-latas no recreio. As canetas fugiram logo aos gritinhos e esconderem-se. Os lápis aproximaram-se a medo e o lápis negro, o Paulito, quis tocar-lhe ao de leve no pelo e o cão começou a roçar-se nele e a abanar a cauda. Até a professora se foi aproximando, atraída por aquele burburinho masculino. Ela avisou que o animal poderia ter parasitas e não estar vacinado por ser um cão vadio. Os lápis, afastaram-se ligeiramante e o Carvoeiro, o lápis de carvão, começou a coçar-se muito, primeiro nas pernas e depois nas costas. A seguir foi o lápis Staler que saiu a esbracejar em alemão, sem ninguém perceber nada. Os outros lápis entreolharam-se admirados.
- Que se passa alemão? – perguntou um deles.
- Que se passa? – resmungou o Staler – esse animal está cheio de pulgas e carraças…
- Eu avisei! –riu-se a professora.
- Senhora professora, pulga é um canimal doméstico? – perguntou o Zé Careca, que era um lápis de pau magro e descabeçado.
- Ó José?! Pulga é uma animal doméstico? Estás tolinho da Silva?-sorriu a professora.
- Vês, vês! Ganhei a aposta!– disse o Manel Biarco, lápis ruborizado, bem português.
- Bem, toma lá! – disse o Zé Careca, entregando uma fisga ao outro – vou falar com o Tone Carapulho…Foi ele que me disse que pulga era um animal doméstico,
E finalmente o velho sino ouviu-se, tocado pela Dona Gertrudes, a velha empregada.

Os alunos lá se arrastaram para a entrada. Os últimos a entrar foram a Luísa, no seu lindo vestido de seda e por último o Varito, no seu traje costumeiro: calças de ganga desbotadas e a sua camisola de algodão. Não se olharam... Ela sentou-se e ele aguardou que ela se acomodasse e só depois se dirigiu para o seu lugar, não sem antes a olhar. Ela também o olhou com os seus lindos olhos cor de mel e sorriu. Foi um momento rápido mas único, um relâmpago. O que havia entre aqueles dois? Não se olhavam, a não ser por breves instantes, e no entanto, havia ali uma força invisível que os atraía. Era como ouvir os sinos da aldeia a tocar ao entardecer, os pássaros a voar sobre as searas maduras da aldeia ou admirar o lindo pôr-do-sol por detrás da colina a adormecer na foz do rio. Tanta poesia no ar…
- Bem, onde ía? – questionou a professora…
A professora continuou com a aula mas aqueles dois não a ouviam. Nas suas cabeças só se ouvia o chilrear de passarinhos, o zunir das abelhas sobre as flores…ou a brisa do suave vento a embalar as pacatas árvores.
E até o tempo parou…

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