Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A deriva conservadora e populista

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-09-09 às 06h00

Artur Coimbra

1 - Não será novidade para ninguém que, pelo mundo fora, está a alastrar uma deriva conservadora, populista e até reaccionária, a vários níveis, sobretudo o político e o religioso, visando recuperar valores do passado e sobretudo contestar e combater ideias e movimentos associados ao progresso, à modernidade, à solidariedade social, ao cosmopolitismo, à tolerância, tudo valores vindos do Iluminismo do século XVIII e nos quais se estribam os fundamentos das revoluções e das democracias contemporâneas.
A nível político, nem é preciso ir ao outro lado do Atlântico, à América desse dementado que dá pelo nome de Trump e cujo pensamento, se é que o tem, é muito voltado para o passado, para o umbigo próprio e do país e para a contestação do que são ideias firmadas pela contemporaneidade e comumente aceites pelos Estados e pelos povos. Muito menos rumar à Rússia ou a Israel, onde os exemplos não são nada edificantes.
Basta atermo-nos ao espaço europeu, onde partidos extremistas e direitistas têm ganho terreno, e poder, o exemplo mais recente dos quais é a Itália. São partidos ou movimentos que têm ganho força na base do medo que infundem aos povos no sentido do que é diferente, sobretudo do estrangeiro. São forças caracterizadas pela intolerância, pelo chauvinismo, pelo racismo e pela xenofobia. E é nesse quadro que, numa Europa em profunda crise económica, marcada pela falência do emprego e das oportunidades, esses partidos surgem em diferentes países identificando como inimigos a abater os emigrantes e quem chega de fora, sobretudo vindos de cenários de guerra, de destruição, de ditaduras e de fome, mas que são acusados de lhes virem roubar os empregos, ocupar as escolas e as universidades, depauperar as finanças públicas e o que é dos povos naturais d esses países.
Esse discurso xenófobo e intolerante – ainda mais ou menos minoritário - está a grassar pelo tecido europeu e a marcar as populações, mesmo nos países mais desenvolvidos, como é o caso da Alemanha, onde regressaram às ruas as saudações nazis, de péssima memória.
No fundo, num território europeu, carregado de História e de passado, a actualidade é feita de interrogações e muito de ideias em tudo contrárias aos princípios que nortearam a fundação da União Europeia, sobretudo a solidariedade entre os povos, a boa convivência, a Europa dos cidadãos, da fraternidade e do desenvolvimento. O que naturalmente deve obrigar os políticos, a cultura e a sociedade a questionar-se sobre o que está a ser feito para cumprir um mundo que não pode parar, nem voltar para trás, seguramente.
E é nesse quadro, que também se pode encaixar o ataque feroz e sem precedentes que está a ser desencadeado nos últimos tempos contra o Papa Francisco, unanimemente considerado um baluarte da luta pela tolerância, pela convivência entre povos e religiões, pela abertura das mentes dos católicos por esse mundo além.
A propósito de acusações de encobrimento ou não se escândalos de pedofilia, que abalam e envergonham a Igreja Católica, o que se pretende é desferir um ataque despudorado ao papa que teve a coragem de enfrentar lóbis diversos no Vaticano e de abrir as janelas da Igreja a novos temas e aos novos tempos, o que enfureceu os fariseus do statu quo.
Há pouco foi divulgada uma carta bombástica do arcebispo italiano Carlo Maria Vigano, acusando Francisco de saber dos abusos sobre menores perpetrados pelo cardeal norte-americano Theodore McCarrick, tendo ocultado essa informação e até dado provas de confiança no acusado, fragilizou de forma inédita o actual chefe da Santa Sé, deixando-o na mira dos sectores mais conservadores da Igreja.
Obviamente que são absolutamente execráveis e intoleráveis os crimes praticados pelo mundo além, por padres e bispos, sobre menores em diferentes tempos e situações. São escândalos que embaraçam a Igreja, rebaixam a sua credibilidade, afectam drasticamente a sua missão de guia espiritual, derrubam o seu prestígio. Devem por isso ser situações que a hierarquia deve penalizar, doa a quem doer, para que não restem dúvidas, e sirvam de exemplo, pois a pedofilia é o pior dos crimes contra as pessoas, e sobretudo porque praticadas sobre seres indefesos e em situações de vulnerabilidade. Um crime horrendo e uma imoralidade.
Mas obviamente o que está em causa nestes ataques despudorados contra o Papa Francisco é um propósito de calar o seu “progressismo”, as suas ideias “liberais”, a abertura que tem demonstrado no seu magistério perante questões que sempre foram tratadas pela Igreja como tabus. É a agonia de quem não quer a mudança e pretende vingar-se contra quem a está a levar a cabo.
Uma nota de rodapé para referir a recente campanha para dar mais visibilidade a manifestações conservadoras de práticas religiosas católicas segundo os ritos antigos, mesmo em Portugal, a nível das celebrações, da indumentária, das leituras em latim, da tentativa de regresso a uma prática ultrapassada há mais de meio século, com o Concílio do Vaticano II. Há sempre gente com saudades do pior que o passado teve!!!


2 - Se calhar na mesma linha ainda, de enquadrar os vários negacionismos que vão pintalgando os nossos dias. O mais recente deu origem a uma conferência realizada na Universidade do Porto defendendo que as alterações climáticas não são fruto da intervenção humana mas resultado de transformações radicais do Sol, o que motivou uma carta aberta ao reitor daquele estabelecimento de ensino, em que alerta para a ausência de “qualquer base científica” para aquelas posições. E não é necessário ser cientista para saber que o mundo de hoje é muitíssimo influenciado pelas alterações climáticas, chovendo em Agosto e queimando em Fevereiro, e que a acção humana é fundamental nessas alterações. O Sol já existe há milhões de anos mas só nas últimas décadas, exactamente por efeito da acção nefasta do homem, o clima tem sido sujeito a alterações que influem directamente na vida de todo o planeta e condicionam decisivamente a vida humana e a própria natureza.
Contestar esta verdade de Lineu, tem muito pouco de científico, mas muito de propagandismo da banha da cobra…

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