Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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31 de Boca

A sociedade e os comportamentos

Ideias

2017-10-15 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Em que é que redundará o espalhafato? Serão os «modos» e o «estilo de vida» os crimes maiores e imperdoáveis do Sócrates? Trinta e quatro milhões se diz que circularam por contas onde ele seria o primeiro interessado, e eu me pergunto: e os quinze milhões que o Salgado embolsou por um «conselho» prodigalizado a um amigo? De uma só vez! Liberalidade? Poça!
Quantas histórias por contar não temos nós em carteira? Mal explicados, quantos milhões somam os submarinos e os Pandur? Eu sei que o nome do Portas vem a baila nestas questões: mas queremos nós lá saber de fulano ou de beltrano! Não poderíamos ser esclarecidos, nós, apenas, pela mecânica submarina ou blindada da manigância? E os Kamov? E o tal sistema de comunicações que funciona aos bochechos? Arrumaremos a podridão, arrumando com o Sócrates? E se o Sócrates for a cortina de fumo que permite que os negócios do costume funcionem com um novo jogo de fantoches? Que fé pública se pode fazer em justiça permeável - a minúscula foi escolhida propositadamente - pois se informações esbordam sem que se perceba como? Isto é: até se percebe.
Poder-se-á insinuar que Sócrates levou ao extremo o que outros fazem com mais tento. Será uma questão de escala? Acho que temos uma comissão de verificação e controlo do património dos titulares de cargos públicos: e funciona? Então, e aquele senhor que queria ser administrador da CGD, mas que não queria que os seus teres e haveres fossem passados a pente de lêndea? Ele tem todo o direito de se manter à margem de escrutínio, mas que a fotografia de família fica tremida, ai lá isso fica. Para mais, se até um ministro em ascensão parecia achar a coisa factível.
Fossem os problemas de Portugal só de dinheiros sem explicação. Quantos milhões não estragamos com imbecilidades! Ouvíamos, esta semana, a Maria de Lurdes Rodrigues a falar sobre as dificuldades de leitura no primeiro ciclo, sobre as reprovações daqui decorrentes no segundo ano de escolaridade: e que tão seráfica ressoava a criatura! Para a Idade Média (!?) atirava a mulher a aceitação de que nem todos aprendessem a ler. Mesmo? Mas quem é que ia à Escola por alturas da dita Idade Média? Coordenou, a zero à esquerda, um estudo perfeitamente nulo sobre a correlação entre o sucesso escolar - à la longue - e o nível de competência de leitura: e o termo de comparação é a Idade Média? Só de quem não faz a mínima ideia do biscate! E esteve, a senhora, a ministra da educação!
Aceito que parecer pode que misturo assuntos distintos - corrupção e aselhice. Permitam-me que ressalte o denominador comum: ficamos sempre a perder. O facto é que, enquanto não nos engajarmos como um todo na vida política, tão rápido somos dirigidos por idiotas, como pela calada somos roubados por escroques que atiram com uma comissãozinha para cima da empreitada. E permitido me seja misturar um ingrediente adicional na caldeirada: e as recentíssimas autárquicas? O Isaltino? Não, nem por isso - por Braga me fico: não ganharam, os que já lá estavam, e em grande, por falta de comparência do suposto primeiro adversário? Por falta de comparência é como quem diz: por comparência voluntarista, é certo, mas no seu quanto atamancada. Não é a estratégia política tributária da estratégia militar? Não houve já, na História Universal, batalhas ganhas em desfavorável correlação de forças? Ah! Já sei: os políticos indígenas formam-se em universidades caricaturais de Verão, e em braços de ferro com ausentes.
Espero, amigo Sócrates, que te apanhem - pelo menos - à moda do Capone, por patética fuga aos impostos. No limite, podes sempre dizer que fui eu que te emprestei um par de milhões, sem papel, pela tua palavra de honra. Tu, para o que importa, ficas de rabinho de fora, e eu, garanto-te, que cá me desenrasco. Combinados?

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