Correio do Minho

Braga, sexta-feira

28 de Maio

Amarelos há muitos...

Escreve quem sabe

2018-06-01 às 06h00

José Manuel Cruz

Tudo muda em segundos, e o último 28 de Maio é prova cabal. Tinha-me arrastado, acabrunhado, como sempre, em dia tão tristemente célebre nos anais da história bracarense e, eis senão quando, as notícias da noite reconciliam-me com a humanidade, à vista da agilidade e destemor de mocetão maliano, um sans papiers que, sacada após sacada, sem corda nem escada, se iça a varanda em que uma criança está em queda iminente.
Foi vê-lo, depois, passajado e perfumado, em chaise Luís qualquer coisa, em parlatório ouro-e-prata do Eliseu, olhos nos olhos com o imperador Macron, Le Premier. Para a posteridade, as camaras não registaram um passou-bem, o que leva a supor que o Delfim tenha fintado proximidades de mão estendida, circunstância em que, por seu lado, o nosso Marcelo teria protagonizado um longo abraço e encosto de bochechas.

Admito que o moço não tenha levado a peito a descortesia, tão assarampatado estaria, nos seus melhores jeans coçados, com tripla promessa no labirinto acústico, a saber: de legalização, de naturalização e emprego.
Nas breves palavras que lhe ouvimos, invocou condução e amparo de um deus nunca nomeado, mas que deve integrar panteão respeitável, se tão assisadamente conduz um fiel. Nas ironias em que o destino é pródigo, temo que filho futuro, desenraizado, deste euro-africano, venha a cometer uma atrocidade, em nome de deus que o pai venera de outro modo.
Promessas de políticos a gente sabe como são. No entanto, tudo parece encaminhado, uma vez que o Mamoudou Gassama recebeu o primeiro dos prometidos papelitos logo no dia imediato. Recebeu, também, do Ministro do Interior, a confirmação de que ingressará no corpo de sapadores-bombeiros o que em Paris é emprego prestigiante e de que a naturalização é já a seguir.
Estava eu em êxtase e, eis senão quando, cai-me o senhor João Lourenço, digno Presidente de Angola, nas escadinhas do 55 do Faubourg Saint-Honoré, nesses mesmos degraus onde, pouco antes, eu vira o maliano armado de diploma de mérito.

Banal visita de estado, pensaríamos, não fossem uns comentariozinhos que, português que se preze, levará em afronta. Desde logo, que era a primeira visita, fora do espaço africano, do novel chefe-de-estado angolano. Depois, que vinha oficializar o pedido de adesão à comunidade francófona. Macron, delirou. E não lhe pareceu forçado, já que o postulante se fazia entender na língua de Balzac, trunfo que, diga-se, ninguém encontrou no trânsfuga do Presidente da Guiné Equatorial que, vá-se lá saber porquê, foi admitido nos PALOP.
Entendamo-nos: Angola tem o direito de escolher os melhores amigos, e eu até veria com bons olhos que puséssemos fim a esta falsa irmandade. De vez! A esta irmandade para francês ver. Seria chato, por causa dos portugueses que para lá estão? Acredito. Assim como são chatos, para a totalidade dos que cá estão, os recadinhos que nos mandam, as retaliações que decretam, como se fossem o sal e o fermento da Terra. Com Angola podemos ter excelentes relações, desde que formais, e não enraizadas num ilusório passado comum, desde que mutuamente vantajosas, e não a expressão de uma simbiose metafísica de carregar pela boca.

Tudo é símbolo. Angola pretere Portugal à França, e ninguém me convence do contrário. E bom é que Costa solfeje por esta pauta. Vivemos obcecados com a atlanticidade, com a africanitude de Portugal. Balelas! Faz séculos que procuramos uma identidade perene, e insistimos em não querer ver que ela se encontra no berço. Somos bons a sonhar e a despejar culpas: o atraso é de Salazar, o atraso é da Monarquia, o atraso é da Igreja O atraso é, finalmente, de quatro décadas de Democracia, por muito que Costas e quejandos não o queiram ver. Com um quinto de pobres, pergunta-se, o que é que Portugal tem de prestigiante para oferecer a Angola, ao Mundo?
Vivemos de Figos e Ronaldos, de Barrosos e Guterres, como se o cabeça de cartaz valesse pela trupe. Terão, os angolanos, razões de queixa dos portugueses? É possível! Mas que não seja pela colonização, pelo esclavagismo, já que nada foi por nós inventado. Nem por europeus. Não somos o nosso passado, e pretender o contrário é anti-darwiniano. Ademais, a exploração persiste, e que afirme, a clique angolana, que governa em prol do bem comum.
Quanto ao 28 de Maio, propriamente dito. Avanço que nos falta um parque temático do fascismo, e até poderia ser em Braga. Longe de vulgar feira de atracções, bons serviços prestaria se, na base desta forma específica de Estado, demonstrasse como deve funcionar um verdadeiro poder democrático: de cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades. E vivam Louis Blanc e Henri de Saint-Simon.

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