Agora que a escola começa... e o jardim da infância também

Ideias

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Cristina Palhares

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Depois de ler a crónica ‘A Escola faz mal’ de Eduardo Sá na passada semana em que se reflete sobre o quanto o jardim da infância pode fazer mal se se tornar pré escola, onde se ensina a ler e a escrever e se perde de vista a socialização, a educação física, a educação visual, a educação musical, o jogo, o ouvir e recontar histórias, o conversar, enfim, tudo aquilo que representa o princípio e o fim do jardim da infância, dei-me conta de como as palavras e as suas definições nos direcionam o pensamento, balizando-o.

Num passado não muito longínquo o termo pré-escola aparece no ensino público como diferenciador do termo jardim da infância (que também evolui de jardim infantil, para jardim de infância e finalmente jardim da infância) que implicava apenas os alunos de 5 anos. Seria então uma fase de pré-escola “obrigando” assim o estado a supervisionar apenas a frequência no ensino público das crianças desta idade.

No ensino cooperativo e privado sempre se falou do jardim da infância para as crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 5 anos. E claro que, se as palavras são muitas vezes merecedoras de duplas interpretações e nos indicam diferentes significados, não mesmo importante é pensarmos o quanto as palavras ‘pré-escola’ e ‘jardim da infância’ nos direcionam quanto aos seus princípios e objetivos. As preocupações de Eduardo Sá são justíssimas porque hoje deixamos que o termo “pré-escola” substituísse o “ jardim da infância”. São preocupações que como educadora da infância (também) não poderia deixar de estar mais de acordo.

No entanto, e porque o ensinar a ler e a escrever implica o ensino formal, ‘formalizamos’ o pré-escolar fazendo-o coincidir com os princípios e os objetivos da escola. Que pena! Que pena o pré-escolar se parecer com a escola. Mas a minha pena ainda é maior por saber que a escola não se parece com a pré-escola, com o jardim da infância. E devia. Devia sim.

A escola devia ser uma pré-escola, um jardim da infância onde a socialização, a educação física, a educação visual, a educação musical, o jogo, o ouvir e recontar histórias, o conversar, seriam tão importantes como aprender a ler e a escrever. E assim, as preocupações de Eduardo Sá para o jardim da infância são exatamente as minhas para a escola do 1º ciclo: A escola serve para alimentar a educação física como se fosse uma escadinha: indo da tonicidade ao equilíbrio, e daí ao movimento, à coordenação motora, ao ritmo, à expressividade, ao brincar, ao jogo e, naturalmente, à relação.

A escola serve, também − para a educação visual. Ajuda a distinguir olhar e ver; ajuda a ir do corpo (com que se desenha e com que se pinta) ao pensamento (e vice-versa); ajuda a ir do sentir ao representar; e ajuda a criar imagens e símbolos (para que sejam desconstruídos, a seguir). A escola ajuda a perceber que quem não sabe desenhar não sabe escrever!
A escola serve, também, para a educação musical. Para ir do som à harmonia dos sons e, com isso, para ir da sensibilidade à expressão musical e dela aos sons com forma (que são as letras) e aos sons com legendas que são as palavras.

A escola serve para brincar. Porque quem não brinca fica fechado (e desconfiado) no seu mundo e, em vez de ficar amigo da diferença (sem a qual nunca se cresce) fica xenófobo e arrogante, mais agarrado ao passado do que amigo do futuro. A escola serve para escutar histórias e para as reproduzir; e para as reconstruir; e para as dramatizar; e para fazer com que elas ganhem vida em nós e, assim, servem para ir do drama à sátira ou à comédia mas, sobretudo, servem para ir da intriga à surpresa, à empatia, à comunhão e ao entusiasmo.

A escola serve, ainda, para conversar. É por isso que as crianças para serem saudáveis, têm de ser ruidosas na sala de aula e têm, de fazer uma algazarra, no recreio. E têm de chocar umas com as outras, têm de se sujar, e de transpirar, com abundância. Escolas com poucos recreios ou com maus recreios são escolas com necessidades educativas especiais e são escolas amigas do insucesso escolar!

Do mesmo modo, todas as escolas, seja qual for o grau de ensino, que não tenham um quadro de honra para os alunos faladores, não são uma escola: são um lugar onde se transformam crianças saudáveis em pessoas sonsas e insossas (...).
É o direito à participação, uma das conceções mais modernas de cidadania que não se esgota no jardim da infância. Porque a infância, como a maioria dos dicionários a define, estende-se até aos 12 anos. E apetece afirmar: mais importante que o jardim da infância não se pareça com a escola é a escola parecer-se mais com um jardim da infância. Aí sim.
O palco dos sonhos de todas as crianças que têm uma enorme vontade de aprender seria o palco dos sonhos de todas as crianças que têm uma enorme vontade de viver.

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