De uma silly season diferente

Escreve quem sabe

autor

Manuel Barros

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Estamos no fim das férias. O espaço das conversas descontraídas, está a terminar. A silly season, marcada por um certo vazio, e pela escassez informativa, usualmente associada às férias dos parlamentos e governos locais e nacionais, potencia um conjunto de factos a que a imprensa dita “cor-de-rosa” dá grande espaço, independentemente da sua relevância e da sua oportunidade.  
Nesta altura, os critérios de seleção jornalística tornam-se mais flexíveis passando a considerar como relevantes assuntos, que ao longo do ano, não constituem objeto de notícia. Um tempo que o ecossistema político potencia para organizar eventos de rentrée, apresentando-se como uma nova dimensão que alguns iniciaram e outros seguiram, e tornaram como o epicentro da atividade das organizações partidárias.
No entanto, a silly season este ano, assumiu contornos um pouco diferentes, em torno dos temas de sempre. Reposicionamento dos partidos políticos para o próximo ano, a preparação do ano letivo, as reuniões das organizações políticas de juventude e os incêndios, que assumiram dimensões nunca registadas, um pouco por todo o país, enriquecida com o lançamento do ato eleitoral que se avizinha.
Transformando as eleições autárquicas num palco, que integra a afirmação das lideranças partidárias nacionais, os cenários pós-eleitorais e a oportunidade para se perspetivarem as remodelações governamentais. Assuntos que foram quebrando o ambiente de desgraça vivida em todo o país. Um verão anormalmente assolado por incêndios de grande dimensão, que infelizmente foram imprimindo uma espécie de ressonância antecipada da disputa política.
Uma dinâmica que se foi distraindo com os negócios milionários do futebol, com a venda de grupos económicos ligados à comunicação social. Factos que criaram perplexidade com os montantes envolvidos, no caso do futebol, e alguma preocupação e instabilidade no mundo dos média, cujo desfecho se tornou numa incógnita que ninguém da área se arrisca desvendar, no caso da Media Capital.
A greve na Autoeuropa foi também um tema seguido com apreensão, por todos nós. Um acompanhamento assente em análises mais epidérmicas e emocionais em alguns casos, mais refletida, racional e fundamentada noutros. Todos eivados de uma preocupação comum, a necessidade que o país tem de investimento estrangeiro direto. O emprego, a sustentabilidade da nossa economia e a criação de riqueza, foram sempre temas conexos a esta situação criada por um sindicalismo de com objetivos enviesados pela tentação política.
Todos sabemos, que as multinacionais da área industrial e dos serviços são aliciadas por muitos países, das mais diversas regiões do mundo. Também temos consciência que o investimento que temos feito no conhecimento e na tecnologia, nos coloca num patamar de excelência, apreciado em todo o mundo. Setor onde temos muitos e bons exemplos nacionais e estrangeiros, de que a nossa região e a nossa cidade, representam um ecossistema de bons exemplos.
Capital de confiança, credibilidade e sucesso que não podemos desbaratar, expondo-nos à concorrência internacional, por razões de um reposicionamento sindical, que deixou a impressão de relegar o interesse dos trabalhadores para uma dimensão meramente instrumental.
Estamos conscientes que os salários no nosso país ainda são baixos, quando comparados com os nossos parceiros europeus. No caso da Autoeuropa, esta realidade não se coloca, porque é a empresa que garante um dos salários médios mais elevado na indústria portuguesa, é um dos maiores empregadores e o terceiro maior exportador do nosso país.
Neste contexto, devíamos estar preocupados com a precaridade do emprego que preocupa todos os portugueses, com especial enfoque nas novas gerações. Altamente qualificadas, para ganharem vencimentos, muitas vezes indignos. Um campo fértil, que tem vindo a ser explorado pelos partidos políticos e pelos sindicatos, sem a preocupação sincera e justa de preparar os cidadãos para o mundo cada vez mais globalizado e, gradualmente, menos seguro e previsível, a avaliar por tudo o que se passou durante este verão, em todo o mundo.
Apesar da silly season a decorrer normalmente, o mundo mexeu de forma preocupante. O atentado de Londres, de Barcelona, e de Paris. O romance de folhetim, protagonizado pelo líder da Coreia do Norte com Donald Trump, tendo como pano de fundo uma guerra de contornos imprevisíveis, que se foi transformando numa espécie de espetáculo de fogo de artifício, com mísseis de longo alcance e que, pelos vistos, até já transportam bombas de hidrogénio, que fizeram tremer o Japão e mais alguns países vizinhos.
Uma trapalhada política que envolve a Rússia, dando a oportunidade a Putin de se tornar o moralista de um dos principais folhetins, com a guarda de honra da marinha americana assistir ao espetáculo, e com os chineses a fazerem de conta que medeiam as relações diplomáticas daquela importante região, do ponto de vista económico e geoestratégico.
A América Latina está a ficar com as suas economias bastante debilitadas, sem estruturas sólidas de governo, para se manter estável durante muito tempo. As ditaduras de esquerda e direita, começam a encontrar terreno fértil para se consolidarem. Estando o continente africano, apesar de todas as contingências, a dar alguns exemplos de maturidade, ao assistirmos à anulação das eleições por decisão do Supremo Tribunal do Quénia. Uma decisão que torna o Quénia o primeiro país africano, a ter uma eleição presidencial invalidada por um tribunal.
Uma “silly season” densa e especial. Enquanto estivemos a banhos, o mundo pulou e avançou. Agora vêm as eleições autárquicas, também elas especiais, que não vão centrar apenas no poder local, porque o poder nacional está ao dobrar da vitória ou derrota, apesar das mudanças de partido, e do aumento exponencial das candidaturas independentes. Resultados que vão exigir aos políticos vencedores, moderação no otimismo, e uma grande capacidade de adaptação ao mundo novo que está a porta.

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