Era uma vez..

Ideias

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José Manuel Cruz

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Assim começam as histórias. Tomo Braga como tema de conto incompleto, sem final nem começo. Enquanto organismo, que coerência anátomo-fisiológica pode Braga invocar? Di-la-íamos harmónica, funcional? A toda a prova apetecível, emblemática? Terá a cidade saído bem tratada, refrescada, alindada, das operações estéticas sobrevividas desde finais da década de ’70? Bem sei que não há unanimidade e que, irmãos sendo, Abel e Caim se desentenderam mortalmente. Sei que crachás ostento nas lapelas, o de diletante - à esquerda - o de protestante - à direita: magro crédito, paupérrima autoridade!
Não só atirar me podem que nada eu sei, como afirmar, em corolário, que técnicos e reputados urbanistas se pronunciaram, a seu tempo, que decisões tomadas foram por maiorias salubres e unanimidades vistosas, sempre em nome dos superiores interesses do burgo, ao encontro de modernidades sagradas: o combate às poluições, o ordenamento e racionalização do estacionamento, a pedonalização, a visibilidade comercial…
Preferências pessoais postas de lado, poderíamos equacionar, sempre, se o primeiro piso do parque de estacionamento da avenida central não deu um rude golpe na circulação automóvel e se, tal como era, não tinha então mais charme a intersecção cardial da cidade; se o ajardinamento do alto da avenida da Liberdade não subtraiu beleza fundante ao cortejo de S. João; se o primeiro piso de estacionamento e os tortulhos de superfície do Campo da Vinha, não redundaram em excrescências degenerativas; se a laqueação da Cónega e a amputação da rua Nova de Sta. Cruz, não constituíram operações de triste enxertador promovido a cirurgião-chefe…
Os exemplos são vários, e nem aos lajeamentos parlapatões vou da Senhora-a-Branca, da rua de S. Vicente. Demonizou-se o carro, nesses idos, como igualmente se demonizou o azeite, em favor dos óleos vegetais, a manteiga, em favor da margarina. Outras soluções poderiam ter sido implementadas - sentidos únicos, alargamento de passeios e passagens pedonais inferiores, policiamento eficaz contra estacionamento abusivo, os parqueamentos corrigidos dos tumores…
De tudo é feito o espaço urbano: por muito se engrandece, por outro tanto se diminui. Chora, a cidade, naturalmente, por prédios que irrompem por entre fachadas, preservadas em memória hipócrita, como miraculadas de ataque aéreo que o burgo nunca sofreu. Dá a sensação que a cidade oscila entre o barroco e bacoco, entre o ornamento de escola e o primitivismo funcional de frontarias sem filosofia nem croquis de arquitecto.
Lá está: eu sei que a propriedade é particular, e bem atesto que não anda mafarrico vermelho aos pulos, dentro de mim, sedento de expropriações coercivas e de obras por despacho. Porém, se a casa é de quem a constrói ou refaz, da cidade menos ela não é. Um indivíduo pode dar-se ao luxo do mau-gosto; a cidade - não.
Insiste, Braga, nos cartazes que pode invocar - uma evidência barroca, uma fantasia romana. Sabemos construir, reconstruir; sabemos fazer como poderia ter sido, em nome de um alinhamento melodioso. Não se constrói a cidade num só dia, por vontade singular, sob batuta única. Cresce, gradual, espontaneamente, e tudo muda logo que procurámos dotá-la de carta de recomendação. Nada obriga a que Braga se invoque «do barroco». Ser «do barroco» é tão bom como ser «do disforme» ou «do heterodoxo», e nada impede que o ferro e o vidro dialoguem criativamente com o betão ou com o granito, que um alçado de cinco metros se aniche aos pés de outro de vinte. Mas se do barroco é para ser, e das extensões que lhe sejam congruentes, então muita coisinha há que fora do sítio está na urbe augusta.
Custa, na realidade, ver a lógica da cidade instrumentalizada pela lógica de interesses que lhe são alheios. Certo é que se encontra, em cada encruzilhada, que bem discorra em favor de algo que risível se torna, em passado um punhado de anos. O argumento do progresso é carta imbatível, sobretudo se um prédio for deixado ao abandono por décadas, destelhado, escorado de forma periclitante, como alguns temos na cidade.
Para tudo há soluções, afirmação que não faço só de um ponto de vista puramente teórico ou por mero exercício de boa vontade.
Dos erros, por outros cometidos, esperar resta que a seu tempo se corrijam, isto porque, onde terra havia e betão passou a haver, de novo a terra pode surgir. Dos erros presentes? Bom, não sei, limito a uma dúvida nuclear: que falta faz um supermercado na embocadura da 25 de Abril? Quem irá ele abastecer? A dúzia de vivendas ao pé? A população docente e afins que por perto rodam? Ou responde, a estrutura, acima de tudo, a uma luta de gigantes comerciais? Será caso para dizer, vira o disco e toca o mesmo?

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