Vou escrever ao Hugo Chávez!

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David Lima

Já toda a gente viu uma ou outra pessoa com uma ou várias chaves penduradas na presilha das calças ou penduradas numa fita ao pescoço… Coisa normalíssima, claro! O que não é de todo normal é aquela elegante mulher fazer-se sempre acompanhar de duas fechaduras presas a dois fios. Para qualquer lado que vá, lá vai ela com as duas fechaduras… Por isso dizem que ela “das duas, uma; ou é tola ou doida ou maluca”…

De sua graça Alba Simplória Tontita, é culta e reservada. Tontita deve ser de família e, quem sabe, coisas do destino. E destino cada um faz o seu… ou, quiçá, já esteja predestinado… E como é de poucas falas, raramente se atrevem a conversar com ela, mas eu apostei que havia de perguntar-lhe que mistério era aquele de tais atavios, o mistério das fechaduras nos fios. E como aposta é aposta e promessa é promessa, ora essa, abeirei-me dela com cautela, fui direto à questão e ela deu a sua explicação, que é de rir, - ou não! - e que eu conto a seguir:

A Alba Tontita contou que é venezuelana e só começou a andar assim faz um ano prá semana. Referiu que toda a gente tem, normalmente, uma chave, que introduz na fechadura, para abrir ou fechar a porta de casa, o carro, um cadeado, o que seja… Mas que ela não é toda a gente, não é como todo o mundo, é diferente, tem direito à diferença e todos devem respeitar a diferença…
- Pois, sim, senhorita Tontita, com todo o respeito! Mas ainda não estou a perceber com que fim anda assim…
- É que eu ao chegar a casa, encosto esta fechadura à fechadura da porta e… e entro! Eu não sou cá de chaves na fechadura, a minha tendência é outra… E devem respeitar as orientações ou desorientações de cada um, não acha?
- Mas isso, assim, não pode funcionar! Como é que isso é possível? Deve funcionar tanto como se eu quisesse carregar a bateria do telemóvel e, em vez de ligar a ficha à tomada, ligasse a ficha à ficha… Não dá…

- Para já tem funcionado, porque eu nunca dou a volta à chave, nem chaves tenho, não quero chaves para nada. Mas se fizerem uma Lei a dizer que dá, já dá! Tem que dar, é a Lei! É por isso que eu vou escrever ao Hugo Chávez… E depois tudo será legal, tudo será possível, tudo funcionará na perfeição!
- Agora ainda percebo menos… É que não entendo o que é que o Presidente da Venezuela tem a ver com isso…

- Então, repare: vou pedir ao Presidente Chávez, (que deve perceber de chaves), que mande publicar um decreto-Lei a dizer que a partir de agora, para além de chaves nas fechaduras, também é permitido e legal, e funcional, chaves nas chaves e fechaduras nas fechaduras… Uma vez publicada a lei, já vai ser possível o que antes era impossível! Só falta é a lei! E não me esquecerei de lhe pedir que acrescente lá no diploma legal, parlamentar ou presidencial, que toda e qualquer pessoa de mente “antiquada” que critique as opções de mentes “abertas”, de chave com chave, ou fechadura com fechadura, deve ser considerada homochávica… e discriminação homochávica, como qualquer tipo de discriminação, passe a ser crime! Está a ver?

Agora gozam-me, humilham-me, discriminam-me, por eu andar com fechaduras, por eu teimar em usar fechadura com fechadura, mas depois vão parar ao tribunal por homochavifobia e apanharão prisão e terão que me indemnizar… É que o respeito é muito lindo… Homochávicos!
E que não se lembre o Chávez de argumentar que isso de fechadura com fechadura é uma loucura de uma minoria; é que, segundo a constituição, pelo menos nas democracias, tem que haver respeito pelas minorias. E há de chegar o dia em que seremos uma grande, grande minoria… ou uma maioria.

Entretanto fundarei uma Associação das Fechaduras, organizarei desfiles pelas ruas das cidades, nos quais, sem respeito pelas sensibilidades e opções contrárias, exigirei respeito pelas nossas opções. E também exigirei que o senhor presidente mande pôr em todos os manuais escolares que fechaduras com fechaduras são escolhas das criaturas. E já se sabe que, depois, nós, baseados no direito à liberdade de expressão e de opção, poderemos criticar os que não são e eles a nós não!
- Ai, não?
- Pois claro que não! Nós podemos criticá-los baseados no direito à liberdade de expressão. Até podemos ir para uma parada vestidas de Virgem Maria, ferindo a sensibilidade do cristão, porque temos direito à liberdade de expressão e de manifestação… Mas eles, não; seria homochavifobia e isso é crime!

E se um dia, por acaso, a minha fechadura acordar e se lembrar que acha que é uma chave, que se calhar é uma chave, que devia, talvez, ser uma chave, que se lembrou de optar por ser chave, o estado deve suportar tal operação de transformação… É para isso que os outros pagam impostos. Eu, como chefe da Associação das Fechaduras, vou pedir isenção… Ai pois não!

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