O que guardam os guarda-chuvas?

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Daniela Oliveira

Todos os anos por esta altura do natal, várias gerações de guarda-chuvas têm encontro marcado no bengaleiro da família Sousa. O guarda-chuva da avó Micas, estampado com gatos de galochas é sempre o primeiro a chegar. Dá-se pelo nome de Madame Lucy e vai recebendo os convidados com entusiasmo:
“Boas noites, Sir John!” - Exclama ao ver chegar o guarda-chuva verde-escuro do tio Alberto - “vejo que mandou envernizar o cabo, que elegância!”
Segue-se o guarda-chuva da menina Clara que, trabalhando esta numa loja de doces, é repleto de desenhos de guloseimas e traz sempre o cabo pegajoso; o da tia Zira, amarelo com pintas; o do primo Telmo, aos carrinhos, e muitos outros, de várias cores e feitios que se vão acumulando em fileira, ora no cabide ora no balde próprio dos guarda-chuvas que, por tradição, fica reservado para os mais velhos. Ouvem-se fragmentos de conversas que, por serem em linguagem da chuva, não são percetíveis aos familiares humanos que jantam na sala ao lado:
“Tem toda a razão, miss Nely, estas varetas já não são o que eram! Além disso, já não sou impermeável como era antigamente, os anos não perdoam!”
“Esta ventania é terrível para levantar o forro às senhoras! É muito vergonhoso quando vamos na rua e o vento nos vira do avesso!”
“Sim meu caro, temo que o aquecimento global prejudique a nossa produção!”
E assim se ia criando o ambiente para a noite da consoada.
Eis se não quando, pingando até na ponta dos bigodes (que nos guarda-chuvas corresponde aquela fita aderente que os ata a toda a volta) chega o guarda-chuva do avô. É realmente elegante, da velha guarda, dizem eles, de um tecido axadrezado de qualidade jamais vista, e um cabo em madeira de carvalho com uma gravação em ouro do brasão da família. É um guarda-chuva reservado, como só os que passaram por grandes chuvadas sabem ser, mas não há neste mundo um melhor contador de histórias que ele. E é precisamente isso que faz todos os anos na noite de natal, junta a família numa roda e escolhe um belo episódio cheio de aventuras para relatar com a sua voz rouca, tão propícia a embalar a pequenada nos seus contos.
“Foi há muito tempo atrás, numa terra longínqua, que nasceu o primeiro guarda-chuva de que há memória” - Assim começou, com solenidade, até ser interrompido por um gritinho agudo e um coro de risos infantis. O guarda-chuva do Pedrinho, transparente com um desenho de um pato amarelo, tinha, sem querer, encostado o cabo à parede e acionara o mecanismo de abertura, caindo ruidosamente ao chão e passando a ocupar grande parte do corredor.
“Seu trapalhão, não fazes nada em condições!” - Ralhou severamente a mãe. - “ Vê se te voltas a fechar antes que alguém dê por ti aqui no chão! E escuta o avô com atenção pois em breve terás teste de História e pode ser que isto dê uma ajuda!”
O avô continuou: “Tratava-se de uma terra que ficava numa montanha tão, mas tão alta - muito mais do que as montanhas que os humanos de agora conhecem - que passava muito além das nuvens, e, como tal, nunca chovia. Nessa terra moravam apenas três pessoas: um poeta, um empresário e um avô, cujo neto e a restante família haviam saído da vila há alguns anos. Nenhum deles jamais tinha saído daquela terra triste e seca, onde o chão era de terra batida, as árvores despidas e as casas sem cor. Mas certo dia, munido de uma sacola com um caderno e uma pena, o poeta partiu à aventura, deixando os vizinhos na sua pacata vida sem água a não ser em garrafão. Quando regressou, muitos anos depois, trazia consigo um caderno de versos onde falava de terras maravilhosas, onde a água caía magicamente do céu e fazia germinar milhares de coisinhas às cores, seguras por um pezinho verde, que se estendiam pelo chão e adornavam as varandas das casas. Mas a água...meu deus, o poeta nem sabia explicar aos amigos! Por isso, estendia-lhes folhas enrugadas onde versos sem fim contavam histórias magníficas sobre os pequenos cristais que saíam das torneiras dos anjos, caindo suavemente sobre os tapetes verdes que cobriam o chão, formando longos lençóis translúcidos que arrastavam as folhas do Outono.
Maravilhados com esta descoberta, os vizinhos decidiram arquitetar um plano para trazer água até à vila. O empresário, pensando numa forma de ganhar dinheiro com a situação, logo engendrou projetos com tubos e tubinhos que rasgariam a terra e puxariam a água da chuva até cá em cima. Mas o avô, pensando em como neto haveria de gostar de saltar em pocinhas daquela água milagrosa e a filha de enfeitar a mesa da cozinha com as tais flores que nasciam do chão, queria ele mesmo ir buscar a água lá em baixo, podendo assim, quem sabe, trazer a família consigo.
Assim, depois de uma noite na oficina, criou uma engenhoca catita com uma armação de ferro e um pedaço dos cortinados da sala, forrados com película aderente para que a água não escorresse pelo tecido.
“Mas avô, como é que um guarda-chuva pode, de facto, guardar a chuva?” - Perguntou um dos mais novos.
“Calma, já ia lá chegar!” - Exclamou o velho guarda-chuva. - “Acontece que esse primeiro de nós tinha uma particularidade, em vez de ser virado para baixo, de forma a impedir que os humanos se molhassem, aquele era virado para cima, assim como quando o vento empurra as nossas varetas em sentido contrário e os nossos humanos perdem a paciência, chegando mesmo a abandonar alguns de nós na beira da estrada.” Um silvo de horror percorreu o bengaleiro, mas o avô, mantendo a seriedade, continuou: “Assim, num dia de Abril, pois o empresário ouvira qualquer coisa sobre as “águas mil” e pensando em dinheiro, logo lhe interessou, os três vizinhos desceram a montanha, cada um com uma engenhoca, a que o avô chamou de Guarda-Chuva.
Chegados a uma cidadezinha chuvosa, rodopiaram alegres na rua, deixando as pequenas gotas acumularem-se na cavidade côncava do instrumento. O avô estava tão feliz que começou a dançar e a cantar à chuva e foi nestes preparos que o encontram a filha e o neto, a caminho da mercearia. O avô explicou-lhes que graças ao guarda-chuva poderiam saltar nas poças e ter flores na sua terra natal e, radiantes, correram a casa a fazer as malas para regressarem à vila da sua infância. Quanto ao poeta, apaixonara-se por uma florista que estava já a preparar-se para ir viver para a montanha, onde os tipos de flores haveriam de ser raríssimos! Distraído a conversar com o neto, o avô esqueceu-se que segurava o guarda-chuva há muito tempo e, devido ao peso da água, a estrutura cedeu, virando para o lado de baixo...”
“Para o lado certo, não é avô?” - Interrompeu uma das crianças.
“Pode-se dizer que sim. Mas continuando, já me perdi... ah! O guarda-chuva virou, ficando da forma que hoje conhecemos, e, para espanto de todos, protegia o avô da chuva, impedindo-o de se molhar. Fascinadas, as pessoas do vale chuvoso, fartas de apanhar chuva e constipações, adoraram e ideia de algo que afastasse a chuva! Assim, o empresário abriu a primeira loja de guarda-chuvas, feitos à mão pelo avô e pela sua filha que arranjava tecidos floridos para os forrar. Assim termina a nossa história e viveram todos felizes para...”
“Oh avô, mas então não nos devíamos chamar “afasta-chuvas”? É que não guardamos coisa nenhuma.” - Atentou uma pequenina, forrada com flores.
“Guardamos pois!” - Respondeu o avô indignado. Todos os guarda-chuvas ouviam agora com reforçada atenção. O avô fez uma pausa para criar suspense e depois continuou: “Guardamos as pessoas, impedindo que fiquem doentes! Somos como vacinas, mas sem dor e com feitios bonitos!”
Todos se riram com as suas gargalhadas de guarda-chuva e continuaram a contar histórias encantadoras... Mas essas ficam para outra altura!

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