Até sermos velhinhos...

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Susana Miranda

Quando entraste em casa depois de um dia de trabalho, simplesmente atiraste a gravata e o casaco para cima da mesa de jantar e deixaste cair o teu corpo cansado em cima do sofá, observando as imagens da televisão distraído. As tuas atitudes eram cada vez mais previsíveis e rotineiras... E a minha motivação estava a desvanecer, dia após dia.

Casámos-nos num dia soalheiro de Setembro, ao som de uma voz angelical que cantava Aleluia e perante os olhares expectantes de toda a nossa família e amigos. Foi uma festa linda, pensada ao pormenor, desde os convites, flores, o meu vestido de noiva, o teu fato, alianças, a quinta, os pratos, a decoração... As nossas lágrimas eram um misto de sensações: alegria, amor, esperança e medo, claro. Eu depositei em ti todos os meus sonhos, sempre te quis como marido, pai dos meus filhos, amante, amigo e companheiro para a vida. Claro que tu viste em mim tudo isso também, dizias-me todas as vezes que apenas serias capaz de te casar comigo. Tínhamos tudo para dar certo!

A nossa lua de mel foi idílica, quase tirada de uma daquelas revistas de gente famosa: Los Angels, Tailândia e finalmente Bali! Depois de onze anos de namoro ainda éramos capazes de conhecer coisas novas e viver experiências como se fosse a primeira vez. Foram onze dias mágicos, cada um deles comemorando um ano de namoro.

Conhecemos-nos ainda adolescentes, a iniciar a vida adulta e uma vida académica. Tornámos-nos adultos quase ao mesmo tempo, partilhámos medos, ânsias e a pressa de viver que todos os jovens têm invariavelmente. Mas, crescemos! Formámos-nos os dois e mal nos iniciamos na vida ativa, juntamos algum dinheiro para a nossa primeira viagem a dois!

Fomos a Londres, a capital que tu sempre adoraste. Comemos waffles de chocolate e andamos no London Eye; foi o momento da nossa viragem e emancipação! No entanto, a viagem que mudou as nossas vidas foi aquela que fizemos a Cabo Verde, três anos depois. Na tua mala estava guardado o solitário mais lindo que alguma vez tinha visto e, no meio daquelas paisagens e praias paradisíacas, pediste-me em casamento, sob o céu mais azul que alguma vez tinha visto. O meu corpo estremeceu de alegria, os meus olhos encheram-se de lágrimas e nesse momento disse “sim”. Dei a grande notícia aos meus pais e à minha irmã, que seria sem dúvida alguma a minha madrinha de casamento!

Ainda hoje olho com saudade para a fotografia onde exibo com orgulho o meu anel de noivado, com um sorriso de orelha a orelha, verdadeiro e genuíno que se foi apagando com o tempo... A nossa casa tem a nossa história exposta nas molduras por cima da lareira, nos quadros que escolhemos juntos e colocamos nas paredes, nos objetos pessoais espalhados sobre as mesas, nos livros que comprámos e lemos juntos. A nossa casa tem o nosso toque e o nosso cheiro! Vivemos o amor de uma forma tão intensa que talvez o tenhamos sufocado como a chama de uma vela que se apaga.

No dia da tua promoção, combinamos festejar e ir jantar fora! Preparei-me ao pormenor... Vesti um elegante vestido preto com um decote pronunciado e que evidenciava as minhas curvas, umas sandálias de salto alto prateadas com a carteira a condizer. Mal me viste beijaste-me o pescoço e sussurraste-me ao ouvido o quanto me amavas. Era um dia feliz, porque finalmente estavas a ser reconhecido pelo trabalho brilhante que estavas a efetuar na banca. Nessa noite falamos em ter o nosso primeiro filho, até porque já estávamos casados há um ano. Nos meses que se seguiram, ambos fomos mudando... Os teus horários de trabalho eram cada vez mais extensos, a tua apatia era cada vez mais estranha, o teu humor deixou de ser uma coisa boa. Caro está que eu soube corresponder à altura...

Nunca mais te preocupaste em saber o que iríamos fazer para jantar, muito menos em saber como tinha corrido o meu dia. Quando entravas em casa, mergulhavas no sofá e paralisavas a olhar para a televisão, esquecendo-te simplesmente que vivias naquela casa com outra pessoa. Praticamente deixamos de dormir juntos, porque no final de jantarmos e arrumar a cozinha, refugiavas-te na varanda horas a fio com um copo de whisky e duas pedras de gelo que ficavam ali a derreter, tal como o nosso casamento, dia a dia... Eras capaz de dormir duas a três horas por noite apenas, até que concordamos marcar uma consulta num psiquiatra. E tal como esperava, estavas com uma depressão profunda, originada pela pressão da responsabilidade assumida no teu novo cargo. Por conseguinte, eu procurei afastar-me dos momentos de tensão e negros entre nós...

Marcava jantares ao fim-de-semana com as minhas amigas, fui passar uma semana de férias com a minha mãe e irmã, desliguei-me do nosso casamento, logo depois de ti.
O lado escuro da nossa relação começou a vir à tona. Nenhum de nós sabia ceder, ouvir ou pedir perdão! Os muitos anos de convivência começaram a confundir-se com o hábito e rotinas atrás de rotinas, o “tem que ser”. Aos olhos de todos tínhamos tudo para dar certo, mas nós os dois percebemos que o sonho tinha acabado ali, fruto das nossas atitudes diárias.
Até sermos velhinhos... foi essa a nossa promessa de casamento... Contudo, nem todas as promessas podem ser cumpridas!

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