Recordações de Infância

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Ana Maria Monteiro

O Tó-Zé era o meu grande amigo de infância, tão grande que éramos quase irmãos.
Vivia no prédio da minha avó e passávamos muito tempo juntos, ou com a minha avó, ou com a mãe dele, Berta, uma mulher singularmente bonita que me ensinaram a tratar por “amiguinha Berta” e a quem eu assim chamava não supondo nem por um momento que não fosse esse mesmo o nome dela.
Um dia a mãe do Tó-Zé adoeceu, adoeceu muito devagar e foi ficando cada vez mais doente.
Lentamente, as nossas brincadeiras deslocaram-se; deixou de ser ela a olhar por nós, a acompanhar-nos e a dar-nos o lanche e passámos a brincar junto à cama dela, o que lhe dava alguma alegria, isto até que a própria alegria também já lhe era penosa, tal como o simples facto de existir e até de respirar.
Mulher de grande devoção, a fé em que Deus não a deixaria morrer, fê-la resistir à doença para além do imaginável e viveu anos de sofrimento atroz antes que finalmente descansasse e morresse.
Foi a primeira perda do Tó-Zé. A seguir o pai dele decidiu que não queria continuar a viver ali, onde o abandono a que votara a mulher o deixara tão mal visto e foi para bem longe (criar bem pior e merecida fama), roubando-lhe tudo o resto.
Ao longo dos anos iam-me chegando notícias do Tó-Zé. Criado ao Deus dará, encarregue ainda criança de cuidar, ele sim, dum pai alcoólico, egoísta e mulherengo, perdeu-se e encontrou-se (talvez) algumas vezes pelo caminho.
Finalmente conheceu uma rapariga inglesa por quem se apaixonou, casou com ela e foi para Inglaterra.
Teve dois filhos, sucesso profissional escalado a pulso, um casamento desfeito, outros casamentos e, imagino, muita solidão por companhia.
Estive mais de 30 anos sem o ver.
Um dia, do nada, telefonou-me. Vinha a Portugal com a mulher. E se nos encontrássemos?
Claro!
Confesso que fiquei muito feliz.
O encontro foi estranho. Nós e as nossas famílias, todos perfeitamente desconhecidos.
Mas o Tó-Zé da minha meninice estava ali, em cada gesto, em cada traço do seu rosto, no riso algo nervoso, no olhar ainda um pouco traquinas.
Engraçado como o desconhecia e conhecia tão completamente e em simultâneo.
Provavelmente ambos, numa dimensão paralela ao estar ali, conhecíamo-nos um ao outro como ninguém dos presentes nos conhecia a nós e havia nesse reconhecimento toda uma panóplia de reminiscências longínquas, daquelas que trazem agarrados os cheiros, as cores, até o calor do colo da avó, que sendo só minha, chegava bem para os dois e que foi a única que conheceu.
Percebi muitas coisas. Percebi, por exemplo, que nunca teve oportunidade de fortalecer as suas fundações interiores, que continuava, dentro de si, o menino sozinho, roubado de tudo, carente, inseguro, receoso do mundo e do seu imenso tamanho.
Nunca mais o vi.
Alguns anos depois disseram-me que morreu. Soube-o no exato momento que antecedeu a revelação.
Desistiu de viver, bateu com a porta, foi-se embora de livre vontade.
Fiquei órfã do irmão que nunca tive e ainda hoje tento perdoar-me por não ter antecipado e evitado o que, no fundo, percebi ser inevitável.
Mas por vezes, muito raramente, o Tó-Zé vem ter comigo durante o sono e voltamos a brincar no quintal e na escada e aos índios e cowboys. Corremos, saltamos, gargalhamos, voltamos a ser felizes juntos.
Acordo satisfeita e revigorada. É sempre bom estar com os amigos.
Nada se perde, tudo se transforma.

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