Num sentimento intemporal de amor

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Rosa Pires

As cores misturavam-se nos azuis, amarelos, laranja, dois tons de verde e rosa e o branco surgia tímido formando as palavras “tu” e “eu”.
A agulha caíra- lhe das mãos por duas ou três vezes, mas da última nem soube explicar lá no hospital como esta se lhe espetara no polegar direito.
E num primeiro impacto tentou tira-la como das outras duas vezes, mas desta vez não se lhe espetara só superficial e na pele, pois no ímpeto de a garrar ainda no ar esta rodara sobre si mesma entrando lhe com força pelo dedo ali muito perto do nervo…... Os filhos acorreram e o marido. Mas como se agarrou ao dedo apertando-o junto aonde tinha a agulha espetada, nem deixara que eles a tentassem ajudar ou sequer aproximar.

Só disse, com voz sofrida e a proteger o dedo que desta vez, o marido, teria mesmo de a levar ao hospital!
Ainda tentaram na enfermaria tira-la sem ficha, mas a ponta em anzol estava presa em algum fio de músculo que só um pequeno toque das mãos da enfermeira de serviço, sem sequer tentar o gesto de a puxar, lhe fez franzir a cara num esgar de dor, que esta aconselho-a de imediato a tirar a ficha de admissão, para a médica da cirurgia lha retirar com anestesia.
Não esperou muito e quando entrou na sala a médica jovem e simpática, perguntou lhe como aquilo tinha acontecido e que já retirara muitos anzóis a pescadores, mas uma agulha de crochet era inédito!

Só respondeu que era a terceira vez: uma fora no polegar esquerdo e outra vez num joelho e como a médica a olhara incrédula, como a pensar que devia ser perita na façanha, retorquiu que das outras duas vezes tinha sido só na pele e conseguira sozinha puxa-la e com êxito!
No rosto sereno da médica não conseguiu descortinar se esta se ria intimamente ou se estava a tentar imaginá-la a espetar a agulha em tudo que era sítio do seu corpo!

E ainda por cima a agulha já tinha anos e o metal estava escurecido que na enfermaria inquiriram se teria as vacinas em dia. Mas, acerca de vacinas era sempre muito cuidadosa com as suas, e as dos filhos estavam sempre actualizadas também.
A médica foi rápida a administrar-lhe o líquido da anestesia e mesmo não sentido dor, sentiu quando lhe rodou a agulha como se a sua mente estivesse no interior do seu próprio dedo numa sensação tão física!

E na saída, desde a enfermeira à menina do guiché, até o segurança queriam ver como a agulha era afinal na ponta.
Mas lá voltou a casa já sem a agulha espetada, mas não se desfez dela.
Não podia!
O amor que sentia por aquela agulha era intemporal.

Era um misto de respeito e camaradagem e embora tendo outras agulhas, não tinham a espessura adequada aos trabalhos que desde jovem ia tecendo e a maior parte deles fora oferecendo a amigas ou familiares. Se calhar não encontraria outra com a mesma espessura porque o tempo e os trabalhos e a forma como a agarrava a foram gastando, tornando-a quase única e moldando-a à medida dos seus dedos como duas amigas ou dois amantes inseparáveis! A mesma agulha que a ajudara dias antes a formar num pequeno lenço as palavra “eterno amor” todo tecido em pontos de crochet em tons de amarelo, laranja, verdes, azuis e branco que mais tarde enviou pelo correio numa caixa de papelão, preso, juntamente com motivos de corações em pontos variados a uma echarpe tecida em lã, a um concurso na sua terra natal de acessórios de moda, alusivo aos lenços de namorados.

A intenção não era ficar nos primeiros lugares nem sequer ganhar notoriedade pela façanha.
Queria juntar a família num evento da terra. Juntar os pais, os sogros, as cunhadas e cunhados, os irmãos e sobrinhos.
Como só os avisou quase em cima do acontecimento, muitos dos cunhados e sobrinhos não conseguiram estar presentes, mas gostaram das fotografias que mais tarde lhes enviou.
E não é que a organização nos dias a seguir quando se dirigiu às instalações para levantar o certificado de participação, na voz da responsável, que lhe confessou que tinha pena que o lugar em que ficara na pontuação devia ser merecedor de um prémio, mas só tinham até aos três primeiros lugares!

Não contava e deu consigo a dizer quer sim a um desafio que esta lhe propôs: no próximo ano iria concorrer, mas na gala principal e com um vestido em crochet!
Nem sabia no que se estava a meter e dando voltas e mais voltas o modelo estava no bom caminho, mas sofrendo ao logo do tempo modificações.
As ideias não faltavam e a cada passo iam nascendo novas, que se tivesse tempo não seria um modelo só, mas toda uma colecção inteira!

Talvez um dia…talvez se dedicasse a tempo inteiro a essa ideia, mas com a ajuda de outras pessoas peritas nessas artes tão delicadas e bonitas…
Ainda tinha bastantes meses pela frente e a peça haveria de ficar pronta com poemas ou sem eles, de uma ou mais cores, de linha grossa ou fina e o amor que nutria pela sua agulha velha e já sem a cor prateada e brilhante, faria nascer qualquer coisa que uma modelo jovem ou experiente vestiria e nos seus gestos delicados e elegantes mostraria na passerelle para ser admirado ou receber apupos.

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