Pombas de São Marcos 

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Márcio Góis

Ter asas e voar. Era dessa forma que eu queria ser quando era ainda um catraio de meia idade. Como invejava ver as pombas voarem soltas à volta das varandas, das balaustradas, dos pilares, dos apóstolos e da fachada em estilo barroco da igreja de São Marcos. Umas voavam sós, outras voavam em bandos em círculos concêntricos que pareciam jamais  terminar. Quando por fim pousavam no Largo Carlos Amarante, nem que fosse somente por uns breves instantes, aproveitava a ocasião para retirar do pequeno saco de plástico transparente migalhas de pão recesso triturado na noite anterior com a ajuda da minha mãe, para logo mandá-las em direção  ao chão, sempre na expectativa de ver as pombas aproximarem-se para degolarem a mioleira do pão. Divertia-me, de forma tão apaixonada e instantânea com aquele espetáculo pictórico embebido em peles circenses, que em certas alturas o mesmo ressoava tão mal aos olhos e ouvidos da nata da cidade, por relembrá-la que a felicidade só é felicidade, quando nos entregamos à mesma de forma ingênua e casta. Porém, nem os olhares reprovadores e incriminatórios impediam-me de soltar gargalhadas histriónicas, de saltar na tentativa de voar juntamente com as pombas, de me aninhar para olhá-las mais de perto e quem sabe tocá-las com a palma da mão. Não conseguia compreender no entanto por que é que um animal tão pequeno tinha assas e eu não, que lhe permitia chegar bem mais perto do que eu ao teto do céu? Talvez fosse porque Deus, aconselhado por Judas, tenha decidido incumbir-lhe a árdua tarefa de sobrestante, com o único propósito de olhar a humanidade através de várias e diferentes retinas. Daí dizerem que ele é omnipresente, pois tem mais do que dois olhos, mais do que um nariz, mais do que uma boca, mais do que dois ouvidos. Mas Deus que é Deus nunca quis que eu voasse como as pombas. Só em sonhos é que logrei pedir emprestado o tapete voador ao Aladino. Foram então poucas as vezes que voei, embora só idilicamente, pela troposfera à semelhança das pombas que alimentava durante a semana, antes de ingressar de manhã no Jardim de Infância de São Lázaro. Um ritual simples e sem nenhum propósito megalómano, mas que me deixava sempre de sorriso rasgado. E ainda hoje em dia, em qualquer ocasião, continua a sobressair o meu ar mais cândido de catraio, dando igualmente mais valor a pequenos gestos e a momentos gratuitos, sem olhar ao seu valor numismático, em detrimento de tendências perecíveis e momentâneas.  

Ter asas e voar. Era dessa forma que eu queria ser quando era ainda um catraio de meia idade. Como invejava ver as pombas voarem soltas à volta das varandas, das balaustradas, dos pilares, dos apóstolos e da fachada em estilo barroco da igreja de São Marcos. Umas voavam sós, outras voavam em bandos em círculos concêntricos que pareciam jamais  terminar. Quando por fim pousavam no Largo Carlos Amarante, nem que fosse somente por uns breves instantes, aproveitava a ocasião para retirar do pequeno saco de plástico transparente migalhas de pão recesso triturado na noite anterior com a ajuda da minha mãe, para logo mandá-las em direção  ao chão, sempre na expectativa de ver as pombas aproximarem-se para degolarem a mioleira do pão. Divertia-me, de forma tão apaixonada e instantânea com aquele espetáculo pictórico embebido em peles circenses, que em certas alturas o mesmo ressoava tão mal aos olhos e ouvidos da nata da cidade, por relembrá-la que a felicidade só é felicidade, quando nos entregamos à mesma de forma ingênua e casta. Porém, nem os olhares reprovadores e incriminatórios impediam-me de soltar gargalhadas histriónicas, de saltar na tentativa de voar juntamente com as pombas, de me aninhar para olhá-las mais de perto e quem sabe tocá-las com a palma da mão. Não conseguia compreender no entanto por que é que um animal tão pequeno tinha assas e eu não, que lhe permitia chegar bem mais perto do que eu ao teto do céu? Talvez fosse porque Deus, aconselhado por Judas, tenha decidido incumbir-lhe a árdua tarefa de sobrestante, com o único propósito de olhar a humanidade através de várias e diferentes retinas. Daí dizerem que ele é omnipresente, pois tem mais do que dois olhos, mais do que um nariz, mais do que uma boca, mais do que dois ouvidos. Mas Deus que é Deus nunca quis que eu voasse como as pombas. Só em sonhos é que logrei pedir emprestado o tapete voador ao Aladino. Foram então poucas as vezes que voei, embora só idilicamente, pela troposfera à semelhança das pombas que alimentava durante a semana, antes de ingressar de manhã no Jardim de Infância de São Lázaro. Um ritual simples e sem nenhum propósito megalómano, mas que me deixava sempre de sorriso rasgado. E ainda hoje em dia, em qualquer ocasião, continua a sobressair o meu ar mais cândido de catraio, dando igualmente mais valor a pequenos gestos e a momentos gratuitos, sem olhar ao seu valor numismático, em detrimento de tendências perecíveis e momentâneas.  

No entanto, de que vale sermos honestos com os nossos próprios sentimentos, quando o amor se mede essencialmente pelo peso da nossa algibeira? E se, eventualmente por algum acaso, estivesse novamente com o Aladino em sonhos, pedir-lhe-ia desta vez para me emprestar a sua lâmpada mágica dos desejos. Não gastaria os três desejos, somente um deles. Pediria ao gênio da lâmpada que tornasse realidade o fascínio amoroso compulsivo que sinto por ti. Era isso. Passar, de uma vez por todas, das palavras aos atos. Na verdade, é somente isso que falta neste momento. Porque quem ama, ama. Não olha a meios, tem somente um fim: o de estar com a pessoa amada, mesmo que tudo e todos em seu redor tentem-no convencer de que o melhor caminho é deixar-se devorar pela rude realidade de que jamais terá assas como as pombas de São Marcos. Mas apesar de almejar mais que nunca voar, ainda assim estou pouco disposto a dar em troca de umas assas a minha própria dignidade. Nem que em troca o raio do Diabo se atreva a oferecer-me de mão beijada todos os prazeres que todos os homens de má fé almejam. Porém, há uma pessoa que eu não me importaria de pedir agora ao diabo, nem que fosse em troca da minha própria carne. E essa pessoa és tu. Pois amo-te de formas que nem tu própria imaginas. E a prova disso é que se, em algum momento, tiveres a ousadia de me pedires esta cidade, eu dar-te-ei uma província. Se me pedires uma província, eu dar-te-ei um país. Se me pedires um país, eu dar-te-ei um continente. Se me pedires um continente, eu dar-te-ei o mundo. Se me pedires o mundo, eu dar-te-ei a Via Láctea. Se me pedires a Via Láctea, eu dar-te-ei o universo. Que mais preciso então eu de te dizer para te convencer de que quando te digo 'adoro-te', quero na verdade dizer 'amo-te', seja na forma caligrafada, ou seja dita numericamente (1.13.15.20.5). Pois o amor não é uma questão  de tempo, mas sim uma forma de dependência saudável por outrem. Por outras palavras, trata-se de uma vontade irreprimível de estar com essa pessoa e de nunca mais a largar. E tenho sempre essa vontade quando um estranho frenesim me percorre o corpo, partindo da raiz dos calcanhares em direção à espinha dorsal, terminando somente atrás das nervuras das orelhas. E é por isso que agora só penso, a todo e qualquer instante, no teu olhar, no teu toque, nos teus braços, nos teus beijos, na tua língua, na tua saliva, em síntese, no teu corpo e na tua alma.  

Um dia destes ainda perco as estribeiras e aposto as poupanças e heranças de uma vida em boletins do Euromilhões, com o único propósito de ganhar o primeiro prémio para esventrar com livre-arbítrio todos os corações de todos os seres vivos, para tos dar a ti e dessa forma veres que o meu bate mais forte do que esses, independentemente dos mesmos carecerem ainda mais de amor. Nenhum lhe faz sequer moça, pois não há nenhum coração que bata tão ofegante quando estás por perto, e ao mesmo tempo tão angustiado quando estás longe. Além de me dizer ainda todos os dias que quer envelhecer ao teu lado, acordar todas as manhãs ao teu lado, adormecer ao fim do dia ao teu lado, no fundo, quer que faça tudo sem nunca descurar a tua presença. És única, e única sempre serás. Pois Deus fez de ti a nova Eva, embora desta vez não tenha cometido o erro capital de te oferecer uma maça, mas antes um coração amargurado de amor, feito a partir de farrapos de uma camisola antiga e vetusta.  

Talvez um dia destes as pombas de São Marcos tenham o deleite de lhes levarmos juntos de mãos dadas e sem receios de sermos vistos migalhas de pão recesso para finalmente comerem. 

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