O Menino do Rio

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M. C. Correia

Era uma vez um menino que morava perto de um rio. Vivia numa casinha muito velha, feita de pedra lascada e barro. Era muito pobre, mas era feliz. Tinha três irmãos e uma irmã, todos mais velhos que o menino Francisco, era o nome do menino que morava perto de um rio.
Francisco tinha apenas cinco anos e tudo que tinha para brincar eram paus e pedras que encontrava: nos caminhos, nos campos e no rio. Enquanto outros miúdos brincavam com brinquedos comprados, Francisco brincava com os brinquedos que ele próprio construía. Mas o que ele mais gostava era de ir brincar para o rio. O rio fascinava-o, e, muitas vezes ficava horas e horas a ver e admirar, toda a água limpa como um espelho, a correr na mesma direcção. E no meio de tanta admiração começava a pensar: quantos peixinhos têm dentro do rio? Como serão as casas deles? Será que não têm frio quando é Inverno, como não têm roupas, devem passar mais frio do que eu na minha casinha velhinha, pois eu sempre me vou aconchegando aos cobertores, os peixinhos coitadinhos tenho tanta pena deles.
O menino pensava no mundo que existia debaixo da água, mas mal sabia nadar e mesmo que soubesse, não podia estar muito tempo debaixo da água, por isso sentava-se na margem do rio e imaginava como seria a vida dos peixes!
 Mas um dia acabou por adormecer e lentamente começou a sonhar: que estava a nadar debaixo da água e respirava como os peixinhos de muitas cores que o acompanhavam e diziam uns para os outros:
- Que peixe é este com umas escamas esquisitas?                       
- Eu não sou nenhum peixe, sou um ser humano, mas não me importava de ser peixe.—disse o Francisco com um sorriso na boca.
- Dizes isso é porque não sabes o que é ser peixe.—respondeu-lhe um peixinho magrinho.
- Porque é que dizes isso?—perguntou o Francisco com grande admiração.
- A vida de peixe não é fácil, e agora que me dizes que és humano e gostavas
de ser peixe, vais ver o que os humanos fazem aos peixes.—respondeu-lhe o peixinho magrinho que era o mais falador.
De seguida o peixinho magrinho e acinzentado convidou o Francisco para ver como viviam os peixes. Começou por lhe mostrar onde dormiam: era uma espécie de cama de pedra, coberta de ervas que nasciam no fundo do rio. “Parece uma cama bem fofinha”, pensou o Francisco enquanto o peixinho magrinho lhe mostrava e não parava de falar, a dizer esta é a minha cama, fui eu que a fiz, aqui somos nós que fazemos as nossas camas desde pequenos, os nossos pais têm que fazer outras coisas e também alguns de nós já não têm pais. Francisco a princípio achou normal que alguns não tivessem pais, com certeza eram velhos e quando se é velho é natural morrer, e não deu importância nenhuma. De seguida, foram para o parque de diversões. A parte mais divertida, foi quando o baloiço feito de ervas rebentou e o Francisco caiu de cu no chão, todos os peixinhos se riram às gargalhadas, incluindo o Francisco que não se magoou, foi apenas o susto de cair.
Durante duas horas o Francisco e os peixinhos brincaram que se fartaram, no escorrega, no baloiço que facilmente foi arranjado, nos cavalinhos que eram os ramos de uma árvore que tinha caído, desde logo aproveitada para fazer uma roda de cavalinhos. Estavam todos cansados e esfomeados. Estava na hora de comer alguma coisa. Foram todos para perto da margem, ver se encontravam alguma coisa para comer, mas não encontraram nada.
  - Nem uma migalhinha de pão!—disse um peixinho vermelho.
Entretanto, o peixinho magrinho olhou para o Francisco e disse com grande entusiasmo:
- Está ali o meu petisco e ninguém o está a ver.—e sorrateiro foi ao
 encontro de uma bola de pão que passeava pela corrente abaixo.  
- Não faças isso.—disse o Francisco com grande preocupação.
- Mas porquê?—falou o peixinho magrinho, quase com a bola de pão a entrar na     boca.
 - Não vês que essa bola de pão é uma armadilha, para te apanhar?
O peixinho magrinho e todos os outros peixinhos ficaram de boca aberta ao ouvir o Francisco, e mais ficaram quando o Francisco lhes desvendou o segredo da bola de pão. A bola que o peixinho magrinho quase engoliu estava presa a um anzol, uma das muitas armadilhas que os homens usam para apanhar os peixes, foi o que o Francisco contou a todos os peixinhos que estavam com ele e, a novidade depressa se espalhou por todo o rio.
E como o Francisco não gostava que os humanos apanhassem os   peixinhos, e os peixes maiores, ensinou-lhes como tirar as bolas de pão sem ficarem presos: com o rabo davam “sapatadas” para a esquerda e para a direita, e o pão caía sem que ficassem presos no anzol, mas com muito cuidado. E também como brincadeira pendurou uma bota (que encontrou no fundo do rio) no anzol só para gozar com o pescador que pensando que era um peixe grande, ficou tão chateado que deitou novamente a bota para o fundo do rio, para de seguida o Francisco fez-lhe o mesmo até que, de tão chateado se foi embora, enquanto todos os peixinhos e peixes se riam às gargalhadas. As dicas dadas pelo Francisco foram um sucesso, todos os pescadores se foram embora, chateados por não pescarem nenhum peixe.
Todos os peixes ficaram gratos pela excelente ajuda que o Francisco lhes deu. Ficaram tão contentes que, deram uma festa de agradecimento. Foi uma festa como nunca se viu outra, no fundo do rio, durou até ser noite.
Francisco estava cansado e feliz, lentamente caiu para o lado e adormeceu, num sono profundo, deitado sobre as ervas dormia como se estivesse na sua cama, da sua casinha velhinha e, sonhava.
Quando acordou, Francisco, estava deitado junto à margem, a bocejar, e, lembrou-se do sonho que tinha tido e pensou: “foi apenas um sonho, era bom demais para ser verdade!” Levantou-se, mas quando se preparava para ir para casa, reparou que tinha as roupas todas encharcadas de água, até as botas tinham água. “Mas não pode ser, isto foi mesmo um sonho, e talvez a dormir caí ao rio e não dei por isso.” E olhando para o fundo do rio, riu-se às gargalhadas ao pensar no que lhe tinha acontecido, e como brincadeira virado para o fundo do rio disse:
- Adeus meus amigos peixinhos, até amanhã, tenham cuidado com os pescadores. E acenando como se acena às pessoas amigas, no seu último gesto de brincadeira, virado para o rio viu tantos peixes a saltar e num coro ouviu:
- Até amanhã Francisco, adeus... Adeus grande amigo.
Francisco nem queria acreditar no que estava a ver e ouvir! “Afinal não foi um sonho, não foi um sonho, mas que bom!” Pensava enquanto se despedia até ao dia seguinte.
Durante o caminho, de regresso a casa, Francisco pensava: como foi possível toda aquela aventura no fundo do rio? No entanto sabia que tudo o que lhe aconteceu foi verdade e isso era o mais importante. E continuou a sua caminhada a cantar: “peixinhos peixinhos de todas as cores, são tão bonitos, ao fundo do rio eu vou voltar, lá lá... lá lá lá, eu vou para casa para me aconchegar.”
Mas o Francisco não sabia que tudo isto foi obra do Senhor do rio, o Deus de todos os peixes.

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