Do espanto à admiração - porque eles merecem

Escreve quem sabe

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Cristina Palhares

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O culminar de mais um ano letivo de crónicas dedicadas quantas vezes a histórias de vidas, ou delas reflexo. Com todas aprendi um bocadinho, com todas construí narrativas que fui deixando ficar, certa de que muitos pais, professores e jovens se revêm plenamente nas linhas que fui tecendo.

Histórias de vida que começam relatando desenvolvimentos precoces, passam pela fase escolar de uma forma bem conturbada que não é um fenómeno novo, pois tal como podemos comprovar na literatura existente, sabemos que pessoas com grandes problemas de rendimento nos seus anos escolares, tiveram, mais tarde, contribuições excelentes para a sociedade e humanidade em geral. Fui relembrando o pensamento humanista que referencia a diferença entre os professores não no que eles sabem sobre a educação, mas no que fazem, na maneira como agem.

E a ação é refletida no ambiente de aprendizagem. Se para as crianças com necessidades educativas especiais o ambiente de aprendizagem é fulcral para o seu desenvolvimento, para estas crianças com necessidades educativas específicas é-o do mesmo modo.
O ambiente de aprendizagem para lá de todos os recursos materiais exigidos e exigíveis tem sempre em permanência o maior recurso que qualquer criança merece: o professor. Assim ele o perceba. E assim, finalmente, no dia em que alguém apostar em todos quantos por nós passam ininterruptamente aos sábados, verão certamente transformada a vida e o seu percurso educativo de tal forma que o futuro se torna um bonito sonho a conquistar. Porque o presente já o é.

Neste sábado passado, numa festa de final de ano em que muitas das crianças e jovens apresentaram alguns dos trabalhos realizados durante o ano letivo, pudemos apropriar-nos do quanto os sábados têm sido importantes: pelas produções excecionais, de grupo, de grupos, de ideias, de criação, de desenvolvimento, mas, e acima de tudo, do desenvolvimento pessoal e social de todos e de cada um, de um crescimento interior e interno tão grande refletido na capacidade de se olharem, de se conhecerem, de se exporem através das suas criações, das suas atividades, das suas histórias.

Foi delicioso. “Ver” a mudança, “ver” o desenvolvimento, “ver” o cada um. Tive pena, muita pena, que não estivessem presente alguns professores destes meninos e meninas. Quantas vezes, e perdidos numa avaliação curricular absolutamente quantitativa perdemos a oportunidade de avaliar de uma forma justa.
A avaliação que deve estar ao serviço do aluno: a que sublinha os fracassos mas também os seus êxitos.

Porque este sábado foi repleto de êxitos: porque despertamos a curiosidade, porque ajudamos a vencer dificuldades que levaram ao prazer de se vencer a si próprio, porque entendemos a necessidade de crescimento como aprendizagem, porque os levamos a sentir prazer em criar algo.
“O professor dispõe do poder de encorajar ou desencorajar, de estimular ou de bloquear, de suscitar as perguntas ou de as abafar. É ele, primeiro, que pode fazer do ensino coisa diferente da de uma seleção contínua.”
(Reboul)

Como somos poderosos… e nem sempre sabemos honrar o nosso poder. Para lá dos produtos, dos resultados finais, das apresentações e dos seus sucessos o que melhor vivenciamos este sábado foi o espanto, o prazer, …, a admiração.
Porque eles nos deram essa possibilidade: a capacidade para admirar, a capacidade para os admirar.
O “espanto” aristoteliano, o “prazer” rebouliano nasce, com certeza, do desenvolvimento de um grande talento: a capacidade para admirarmos.
Para admirarmos o mundo que nos rodeia, as relações que estabelecemos, as crianças e jovens com quem partilhamos o nosso dia a dia. “Admirar” é olhar o outro por dentro, o reconhecer o porquê das nossas relações é, numa palavra, compreender.
Por isso, e a todos os meninos e meninas que acompanhei estes sábados, o meu obrigada. Obrigada por nos espantarem, obrigada por nos deixarem admirar-vos.
A todos os professores destes meninos e meninas recoloco uma máxima que em tempos vos tinha deixado: o desenvolvimento da capacidade de admiração - deixemo-nos espantar pelos nosso alunos.

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