“Amar pelos dois” é uma lição para todos

Ideias

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Felisbela Lopes

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“A música não é fogo de artifício”. Escassos minutos depois de ter sabido que vencera o Festival Eurovisão da Canção, feito nunca alcançado em Portugal, Salvador Sobral centrou o seu discurso no essencial que haveria para dizer. Numa sociedade em que atores de diferentes campos se preocupam mais com a forma do que com o conteúdo, eis um músico a posicionar-se contracorrente numa ordem dominante que nos atira para um vazio inquietante.

Foi num inglês apurado que o intérprete da lindíssima música “Amar pelos Dois” fez um breve discurso que marca esta edição do Eurovisão. Posicionou-se contra uma tendência festivaleira que tem tomado conta deste evento e declarou a sua profissão de fé na qualidade da música. E na originalidade da letra. E, já agora, na força da língua. Apesar de dominar bem o inglês, Salvador Sobral não vergou à tentação de deixar a língua do seu país de lado para entoar a sua canção num idioma que hoje terá maior influência à escala global. Cantou em português e fez vibrar a Europa. Está de parabéns pela ousadia. Que, quando acompanhada do talento, vinga, como se viu.

“Amar pelos dois” é uma lição. Para vários campos. Para a política, por exemplo. Já em tempo de pré-campanha eleitoral para as autárquicas, que bom seria que a política local prescindisse dos foguetórios da espuma dos dias e se voltasse para aquilo que verdadeiramente interfere na vida das pessoas. Passado o tempo das grandes obras públicas, os autarcas centram-se agora em eventos imateriais e muitos lá vão cedendo à tentação de investir demasiado na promoção da sua imagem que, quando desamparada de trabalho, é efémera.

“Amar pelos dois” é uma lição também para o jornalismo. Que hoje segue uma seleção de acontecimentos e de fontes de informação muitas vezes desprendida de qualquer interesse público. Não se pense que os jornalistas gostam de ancorar o que fazem num registo sensacionalista. Não gostam. Fazem isso porque necessitam de perseguir as audiências. Acontece que há uma franja razoável de público que procura outro tipo de conteúdos. Mais explicativos, mais contextuais. E não encontram isso com facilidade.

“Amar pelos dois” é uma lição também para o desperto. Num fim-de-semana tão eufórico para o futebol, será certamente uma boa altura para repensar os caminhos que este desporto das multidões tem trilhado. Ao nível dos dirigentes, das claques e de certos comentadores. Salva-se o que se passa dentro das quatro linhas. Mas o jogo que se joga no relvado é incapaz de fazer milagres, como se tem constatado.

“Amar pelos dois” é uma lição também para a forma como olhamos para o ensino, para a ciência, para o conhecimento ou para a cultura. Num país em que as políticas públicas nem sempre favorecem a profundidade das aprendizagens, o tempo da investigação, a importância do saber ou a originalidade de um trabalho, Salvador Sobral surge como uma ruptura naquilo que é hoje um modo de estar. E de ser. Em que importam apenas resultados. Em forma de números e de listas bem ordenadas. E nada mais. Não deveria ser assim.

“Amar pelos dois” é uma lição também para nós. A canção começa assim: “se um dia alguém perguntar por mim diz que vivi para te amar”. Faltam aqui a música e a interpretação de Salvador Sobral. Se juntarmos essas variáveis, tudo é demasiado perturbador, porque não imaginamos ninguém assim. Mas gostaríamos de conhecer uma pessoa capaz de tão gigantesco modo de amar. Capaz de amar pelos dois, sem fazer planos do que virá depois.

Nos próximos dias, ouviremos falar muito de Salvador Sobral. Já percebemos que estamos perante um anti-herói, o que o torna ainda mais singular. Escutaremos reiteradamente a sua canção. Belíssima. Mas essa música vencedora do Eurovisão ultrapassa muito o que dá a ouvir. Que bom seria se cada um de nós fosse capaz de absorver as lições que ela nos transmite.

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