Viagens Bebe & Dorme

Voz às Escolas

autor

José Augusto

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Oassunto não é novo mas é incontornável. Com as férias escolares da Páscoa, anualmente, as notícias repetem-se entre os temas recorrentes das celebrações da quaresma e da afluência de turistas e os quadros tristes dos nossos jovens nas chamadas viagens de finalistas ao sul de Espanha. Por uma questão de higiene, não entro nas discussões das redes sociais irremediavelmente radicais, compulsivamente justiceiras e inevitavelmente superficiais. Porém, sobre o muito que, mais uma vez, se escreveu e se disse na imprensa tradicional, importa tomar posição e aprofundar a discussão (embora isto só volte a ser tema de debate no próximo ano).
Em primeiro lugar, está por demonstrar que, na maioria dos casos, estejamos a falar de viagens de alunos. Sim, esse qualificativo, tão frequentemente abusado, só deve ser usado quando se tratem de viagens organizadas por escolas, devidamente inscritas nos seus Planos Anuais de Atividades e devidamente enquadradas e acompanhadas pelos seus profissionais, designadamente, professores. Com os contornos e a fama que estas iniciativas têm, duvido que ainda haja alguma escola que se envolva nestas viagens com agenda organizada para beber e dormir, ainda que essas atividades dominantes possam alternar indistintamente entre a discoteca, a rua, a praia ou um quarto de hotel. Aliás, a degradação e os riscos são de tal ordem que o mais sensato, da parte das escolas, é proibir toda e qualquer ação de promoção destas iniciativas no seu interior, ainda que protagonizadas por Associações de Estudantes tomadas como barrigas de aluguer para a sua criação.
Em segundo lugar, importa afirmar sem tibiezas que nenhuma queixa de mau serviço, nenhuma frustração de aventuras dionisíacas, nenhuma intolerância com a arruaça legitima atos de vandalismo. Se houve promessas defraudadas (lícitas ou ilícitas) importa saber quem as fez - os hoteleiros, as agências, os angariadores - quem deve responder por elas e de que forma devem ser responsabilizados. Nestas idades, deviam estar aprendidas outras formas de lidar com as contrariedades e de aceitar os limites impostos pelo respeito devido aos outros. E isto é tão básico que deve aprender-se em família. Será que estes jovens têm estes comportamentos em casa? Será que, em casa, quando a comida sai mal, o quarto não foi limpo ou alguém os manda fazer pouco barulho, os pais aceitam que não obedeçam ou que desatem a partir tudo? Claro, estes jovens (isto é, os seus pais) pagaram e, por isso, podem ter certas exigências. Porém, quem lhes financiou a viagem tem a responsabilidade de lhes explicar os limites do contrato de prestação de serviços, o valor do respeito por quem trabalha para lhes prestar esses serviços e, até, os limites da decência exigíveis em qualquer circunstância.
Em terceiro lugar, importaria compulsar estas atividades e o seu desprendido financiamento pelos familiares (ou, até, pelos próprios jovens) com a choradeira cíclica perante as verdadeiras e necessárias despesas de educação. Comparar as despesas destas viagens com as despesas com manuais e material escolar ou com as propinas para a frequência do ensino superior. Claro que, em muitos casos, os protagonistas não serão os mesmos. E nos casos em que forem? Que inquietações nos ficam quanto à definição de prioridades dessas famílias? Podia e devia haver viagens de final de curso e, até, de final de ano, mas não deviam ser desta natureza. Podiam ter componentes culturais, lúdicas e de convivência entre jovens, mas deviam afastar a intoxicação coletiva como única forma de obter prazer. Podia e devia haver momentos desses para todos, mas se os recursos forem escassos há que saber estabelecer prioridades e, sempre que necessário, dizer não. E, já agora, não! As viagens “bebidorme” não devem ser consideradas despesas com educação para efeitos de IRS.
Finalmente, importa discutir o papel das Associações de Estudantes (AE) nestas iniciativas. Na verdade, é com profunda tristeza que fomos assistindo à transformação das AE em meros promotores de viagens “bebidorme”, quando não em simples angariadores de clientes das agências promotoras, mediante participação económica no negócio ou usufruto de viagens grátis. Na verdade, as disputas eleitorais para os órgãos das AE estão, hoje, maioritariamente reduzidas à disputa entre agentes e agendas para viagens “bebidorme”. Porém, com respeito pelo associativismo juvenil, a margem para uma intervenção pedagógica das escolas na orientação dessas decisões é muito estreita. Por isso, é imprescindível a intervenção responsável e ativa dos pais.
Apesar de tudo, isto é preciso sublinhar o óbvio. A maior parte dos jovens que frequentam as escolas secundárias deste país não foi para “bebidorme”, ficou em casa. E a maior parte dos que foram não se portou tão miseravelmente que tivesse que ser expulso, apenas alinharam num ritual dionisíaco consentido e financiado pelos seus pais. E, mesmo assim, a maioria deles, futuramente, serão cidadãos adultos responsáveis e conscientes, embora possam não ter aprendido quando devem dizer não aos seus filhos. E isso faz muita falta…

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