Um curto pesadelo de oiro

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Domingos Xavier


Havia paralelo e juntas de argamassa no Largo dos Penedos e eu estava na paragem do autocarro com a minha mulher e a filha dela, no caso a minha enteada. Sucede que a menina se agachou atrás do abrigo de passageiros para simular um falso alarme de xixi e começou a riscar entre dois paralelos com um caco de calcário baço e amarelento.
- Mamã, mamã, anda ber este bulaco!
- Bá, lebanta-te, num estejas a inbentar! - gritou-lhe a mãe, com desinteresse total na descoberta.

Mas como a catraia não sustinha aquele chamamento, nós os adultos acercamo-nos do local, onde o dedinho polegar maroto da zézinha - que partira de um simples buraco de formigueiro - já tinha à mostra um orifício com 3 polegadas. Dobrei a espinha e comecei por encontrar um pedaço de moeda incompreensível, de uma cor negrejada e com um certo relevo em suave curva de Niemeyer.
- Deitai isso fora que não presta!! - assegurou a minha companheira, sempre mais preocupada com a chegada dos TUB, porque tínhamos de ir à Missa ao Sameiro.
Os meus conhecimentos de autodidata e muitas horas passadas de gatas nas citânias de Sabroso, S. Julião e do Monte Castelo, fizeram-me suspeitar do caso. Acolitado pela menina de olhos de lémure, continuei a alargar o buraco de formigueiro e já eram meia dúzia as moedas romanas, algumas de ouro pouco cintilante. Começamos os três sonhar: ela com aquele resort em Lagoa, eu com um instituto de pesquisa capilar de vanguarda junto ao laboratório de nanotecnologia. Nessa altura, pouca gente circulava no passeio em frente à antiga Foto Aliança. Tínhamos de chamar os transeuntes para servir de testemunha. Íamos entregar aquele tesouro à Câmara, mas eram precisas assinaturas para certificar uma recompensa por esta descoberta heróica. Juntou-se, por conseguinte, uma pequena multidão; e a minha voz, com o pé firme em cima do buraco, anunciou em tom de megafone - as mãos num arco sobre a boca:
- Pois descobrimos um pote de moedas em ouro aqui no Largo dos Penedos; e estamos dispostos a entregá-lo a quem de direito, mas é justo que tenhamos uma boa recompensa!
- Mas onde raio está essa mina dourada? - Inquiriu logo um artolas chico-esperto.
- Calma, chamem primeiro a Câmara e o Correio do Minho para registar a descoberta.
Precavida, a mulher deu-me um toque visual e corrigiu:
- O Correio do Minho não!
- Homessa, não vamos agora discutir, se não queres o Correio chama-se o Diário do Minho!
- Ou o Correio da Manhã, que está mesmo ali em frente! - acrescentou um estudanteco daqueles que estão sempre a interromper os professores.

Vieram logo as sugestões do Porto Canal, da CMTV, do Canal Q e… Até que a minha consorte parou a discussão:

- Calma, calma, calma, os jornais e as televisões nem pensar. É que depois assaltam-nos a casa e matam-nos por julgarem que temos muito ouro.

Entretanto, eu tinha uma sapatorra bem firme sobre o buraco e mantinha com a mão esquerda a boca da enteada pronta a ser cosida, não fosse ela revelar o segredo. A outra mão no bolso para evitar que o minério já extraído do formigueiro saltasse à vista daqueles gulosos. Nisto chegou um sósia do José Nuno Martins, afirmando ser um enviado municipal, tripulando uma carrinha de combate a incêndio. Depois de uma troca de informações, um briefing, fomos elaborar uma ata do achamento para junto do carro dos bombeiros e, de repente, eu perdi de vista a mulher e a menina lémure, pensado ter sido abandonado por causa da minha ganância fútil: «maldito ouro que já veio criar uma divisão insanável na Família». Discutiam-se pormenores da recompensa - agora já no Cabanelas, na Rua dos Chãos, à volta de bananas e copos de verdinho espumante - e acabo também por descobrir que me tinha esquecido do buraco aberto à vista de todos. Notei, porém, que eram agora tantas as pernas e tantos os sapatos que não se via um centímetro de paralelo. Finalmente, depois de assinaturas, selos brancos e apertos de mão, a comitiva largou o carro de bombeiros, a servir de quartel-general, e fomos todos de roldão para junto do orifício por detrás do abrigo de passageiros. Foi então que o Largo dos Penedos venceu o Largo do Beato. Nem queiram saber!: um grupo de bombeiros com pás começou a escavar uma cratera donde jorravam moedas de ouro. E eram tantas e tantas que não chegariam os godos do Ofir para equivaler a tamanho numerário. Toda aquela gente estava agora locupletando-se na mais completa anarquia, a acamar os bolsos de luzidias pacatas. Ia assim perdendo o controlo e o comando da situação. Uma cena aflitiva e um esvaziamento colossal, pois tinha perdido a mulher, a menina de olhos lémures e agora via também a fortuna por um canudo.

Mas queria muito saber o desfecho daquilo tudo. Só que, entretanto, o leve barulho do gato a descer as escadas sobressaltou-me e o sonho virou um pesadelo. Eram 4h30 do dia 21 de agosto de 2015.

Que chatice! Que pena este doce pesadelo ter sido a aniquilado pelo diabito. Maldito gato! No entanto, já não é a primeira vez que o safado me interrompe os sonhos; e às vezes até com pertinência e em defesa do interesse patronal. Há tempos, salvou-me in extremis do martírio dos justos quando eu estava prestes a ser degolado por um carrasco do Estado Islâmico.

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