O coiso

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Daniel Luís

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“Todos nós temos que trabalhar em conjunto - sindicatos, patrões e partidos - para conseguirmos ultrapassar este coiso” - declarações proferidas por Álvaro Santos Pereira, Ministro da Economia e de mais uma série de pastas (pelos vistos, da maior inutilidade), na última sexta-feira, durante o debate de urgência sobre o desemprego na Assembleia da República. Pelos vistos o debate foi mesmo tão urgente, mas tão urgente que nem o próprio Ministro teve tempo sequer para se inteirar sobre o teor do debate. Vai daí e resolveu coisificá-lo, tratando o desemprego por “coiso”!

Numa análise simplista, podíamos dizer aqui que o Ministro estava a pensar em pénis, já que muitas das vezes é assim que o sexo masculino é tratado: por “coiso” (e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa não me deixa mentir a este propósito). O Álvaro vê no desemprego uma pilinha cada vez maior que é preciso derrotar com a ajuda de todos, antes que ela cresça ainda mais e nos phoda a nós, portugueses.

Outra leitura da utilização do substantivo masculino “coiso” no seu discurso na Assembleia da República pode ter a ver com o facto de o Álvaro querer acabar de vez com a humanização dos portugueses desempregados para passar para a coisificação do desempregado, tratando-o como se fosse uma coisa, um objecto, em que há a banalização da miséria tomando como exemplo a pessoa em situação de desemprego e a relação do ser humano com a sua própria identidade enquanto pessoa, identidade esta que se vai destruindo com a situação de desemprego e que transforma o desempregado em mais um mero número estatístico, em mais uma coisa, com pouco valor de troca, dadas as miseráveis condições económicas do país.

Mas quem deve estar perplexo com este “coiso” do Álvaro Santos Pereira é Miguel Relvas, o chefão das secretas e, ao fim e ao cabo, de todo o Governo. Aposto que, perante ele, todos os membros do Governo baixam a bolinha, piam fininho, incluindo Passos Coelho, pois Relvas deve saber a vida privada deles todos, inclusive, os sítios por onde eles andam com o “coiso”. E uma informação dessas dá poder. Por isso Relvas é uma espécie de Todo Poderoso dentro do Governo.

Relvas deve estar todo lixadinho e a pensar: “Ora bolas, agora é que o Ministro dos pastéis de nata me passou a perna. O que quererá ele dizer com a palavra de código ‘coiso’? Estou a ver que vou ter que pedir ajuda ao FBI para me ajudarem a deslindar este intrincado caso de segurança nacional. Mas primeiro tenho que telefonar para o jornal Público para fazer umas ameaças…”

Imaginemos que a moda pegava e que os outros Ministros também começavam a tratar importantes dossiers por “coisa” e por “coiso”…
Assunção Cristas: “Muitos jovens estão a começar a ver na ‘coisa’ uma alternativa credível de subsistência.” [coisa = agricultura].
Nuno Crato: “Os exames nacionais são essenciais para pro-var o rigor e a excelência da ‘coisa’ das nossas alunas e alunos”. [coisa = educação].
José Pedro Aguia-Branco: “Portugal possui um ‘coiso’ altamente preparado para actuar em cenários hostis”. [coiso = exército].
Pedro Mota Soares: “Fico feliz por constatar que os portugueses têm um grande ‘coiso’”. [coiso = espírito solidário].
Paulo Portas: “Portugal não reconhece o ‘coiso’ saído do golpe de estado da Guiné-Bissau”. [coiso = Governo].
Paula Teixeira da Cruz: “Tenho esperança que, todos juntos - procuradores, advogados, juízes - vamos conseguir aumentar a eficiência do ‘coiso’ portu-guês.” [coiso=sistema de justiça].
Miguel Macedo: “Os ‘coisos’ da GNR estão sempre prontos a entrar em acção, seja em que circunstância for”. [coisos = soldados].
Vítor Gaspar: “Vou cortar os subsídios de férias e de Natal aos coisos”. [coisos=funcionários públicos e pensionistas].
Paulo Macedo: “Os portugueses que quiserem ter acesso à ‘coisa’ terão que pagar uma taxa”. [coisa = saúde].

Já estou a imaginar uma reunião no edifício do Ministério da Economia. A sala devidamente preparada, as cadeiras, o projector, os portáteis, as garrafinhas de água, os bolinhos, os representantes dos sindicatos, os representantes dos patrões, os representantes dos partidos e eis que surge o Álvaro em grande pose a comer um pastel de nata ao mesmo tempo que uma assistente manuseia uma aplicação no portátil do Ministro, fazendo aparecer na tela, bem visível, em letras garrafais, o tema que trouxe ali todos os intervenientes presentes: O COISO.

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