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Alexandre Fernandes

A febre que se agregou no meu corpo sem pedir licença obrigou-me a deitar. Deitei-me meio senil, com o tacto em défice de rendimento.
O olhar cansado finalmente pôde descansar. O frio, esse imenso frio curvou-se à apaixonante força da flanela. As horas clamavam uma nova refeição que o corpo alterado recusava. A minha mãe perseguia-me com as mais diversas questões, sobretudo relacionadas com o meu bem-estar. Enumerá-las seria um excesso pouco produtivo. Só os meus ouvidos resistiam ao desfalecer dos sentidos.

A cama ajeitou-se para me receber. As almofadas depressa murcharam. Reparei que a minha mão esquerda abeirou-se do meu nariz carregado de ranho. A minha mão esquerda tinha acabado de ganhar vida própria.
A febre não tinha conseguido controlá-la e então ela aparecia-ma assim, à frente do meu nariz, a escarnecer de todo o meu restante corpo. A minha mãe saiu. A porta soltou um ventinho inspirador para cineastas de tradição. Os meus olhos finalmente encarceraram-se.

Restava a novidade de que tudo aquilo que acontecera até aqui, já não era mais importante. Ao apagar das luzes renovou-se a realidade que, pouco tempo antes me havia prostrado como inerte. O vazio de um físico doente, dava lugar a um revigorado eu.
Um eu com ideias, com vida, com luz, com uma namorada. Uma namorada que caminhava em cima de um motociclo de duvidosa qualidade. Eu caminhava a seu lado, de carácter enciumado.

Talvez porque me encontrava em cima de uma modesta bicicleta. Talvez por me sentir inseguro em viajar por uma avenida movimentada naquela bicicleta. Parámos os dois nos semáforos. Fixei o meu olhar no vermelho quando ela me disse - Eu vou mais depressa amor! Preciso fazer umas coisas antes - Percebi de imediato que tal solicitação para fugir de mim naquele momento era uma forma de me dizer “ socorro ”.
Percebi a intenção sem perceber no entanto, o motivo para tal desespero.

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