Uma vida em dois dias

Conta o Leitor

autor

Escritor

contactarnum. de artigos 471

Carlos Alberto Rodrigues

Carlitos sempre se sentiu um privilegiado e por isso orgulhoso de ter nascido e crescido enquanto criança e grande parte da sua adolescência num dos locais mais aprazíveis do país e que teve a bênção dos Deuses quando criaram o Gerês e toda a sua região envolvente.
No seu caso, as faldas daquela serra serpenteada pelo rio Cávado cujas águas formam um belo espelho na Caniçada e que depois de a “abandonar” continua sua aventura num vale encravado entre duas vertentes montanhosas que servem de miradouros privilegiados sobre o casario tão típico daquela região e cujas águas refrescam as suas margens dando um toque idílico apenas ao alcance de pinceladas de grandes mestres da pintura.

Mas a casa onde Carlitos nascera, apesar de não ser tão velha como alguns exemplos centenários ou de Brasão, não deixava de ser um simples mas talvez por isso, belo e aconche-gante casario carregado de granito onde se realçavam as janelas em madeira maciça onde sobre uma das quais se encontrava a inscrição ‘Maio de 1935’. Aliás, duas janelas ficavam estrategicamente frontais para a barragem que se via lá no fundo do quadro inspirador mas ao mesmo tempo sobranceiras ao casario que era avistado lá em baixo na aldeia e uma outra ‘aldeiazinha’ caiada de branco e que ficava numa pequena colina acima do rio, que é o sítio onde sabe ter os seus entes mais queridos que já tomaram A VIAGEM.

Os avós e padrinhos, tios, e primos, sempre sabe onde os encontrar para trocar dois dedos de conversa sempre que quer ou precisa. Encontrava-se à sombra de um frondoso pomar onde se colhiam as melhores laranjas, pêssegos e ameixas, além de outras árvores de fruto, mas também roseiras bravas que ladeavam o caminho para um pequeno lago estrategicamente colocado ao centro, cercado de japoneiras e canteiros onde se podiam encontrar ervas medicinais e outras silvestres. Em conjunto, formavam um quadro digno de Monet.

De realçar ainda as heras que cobriam grande espaço da parte inferior do prédio que era ocupada por duas divisões: uma chamada de ‘loja’ onde, pelo seu ar fresco, se guardavam enormes pipas de vinho tão apreciado na região e outra, mais pequena, que servia para guardar durante meses, numa espécie de celeiro, cereais e presunto e outras carnes numa arca a que chamavam ‘salgadeira’ pois podia-se guardar durante longos meses envolvidas em sal as mais variadas carnes.

Esta mesma moradia se olhassemos um pouco mais para cima, em direcção aos céus e quase tocando-lhes podíamos avistar o resto da ilídica paisagem carregada de verde fresco: O Monte da Abadia de Bouro ou o Monte de Santa Isabel, um dos locais mais procurados no turismo local ou lá mais abaixo, quase no fundo deste quadro naturalista as Serras da Cabreira e do Gerês e daí descendo em direcção às pontes de rio Caldo. É o núcleo. Dali se vê tudo à volta sem pestanejar apenas soltar uns ais de espanto tamanha é a beleza.

Recordava-me das suas idas ao monte em busca de mato, entretanto roçado, para ver e ajudar nas lides dos homens adultos e que seria transportado em carros puxados a juntas de bois e cujos eixos “choravam” pelo peso sobre as grandes pedras da calçada daqueles tempos. Rituais tão bem contados que eu imaginava o meu amigo um sortudo por puder acordar ao som do chilrear dos pássaros, do pequeno-almoço, que tem um sabor diferente e único na aldeia, das correrias por entre veredas e os verdes campos na companhia das irmãs, primos e amigos, numa ciranda de alegria contagiante.

O brilhar dos olhos nas lides domésticas, quando suas avós preparavam o farnel para alimentar os Homens que trabalhavam àrduamente a terra, que vindimavam ou ainda roçavam mato numa alegre algazarra onde se contavam as novas da aldeia enquanto esperavam para saciar a fome e a sede. Normalmente o cardápio era constituído por peixe frito envolvido em farinha de milho e que lhes dava um sabor especial, bacalhau frito ou presunto com broa de milho e o vinho para refrescar suas sedentas gargantas.

Mas o melhor é que eles podiam se juntar no banquete aos “homens adultos” e enquanto ouviam estórias que ainda hoje se recorda com saudade, mui-tas eram as vezes em que, qual avô ou ‘padrinho’ subia as escadas que o levava até ao cimo das videiras e colhia com todo o cuidado os cachos de uvas que depois seriam transportados no mesmo carro de bois num belo ritual que terminaria no lagar para serem pisadas pelos seus pés entre cantares brejeiros e honras ao Deus Baco.

Costumava-me segredar que apenas quem nascera saloio (e não era no aspecto pejorativo da palavra) quem conhecia verdadeiramente os aromas e estados do campo, é que sabia verdadeiramente o valor da convivência com a natureza e o valor que se devia dar por isso.
Naquela aldeiazinha criou as melhores amizades, do tipo que ficam para sempre dentro do nosso espírito e que são testemunhas dos melhores momentos de nossas vidas. Neste aspecto Bilito é o melhor exemplo do que acabámos de escrever.

Por coincidência tinham nascido no mesmo dia no mesmo mês e no mesmo ano! Talvez também por causa disso tenham alimentado durante anos e anos uma amizade de “meter inveja” aos melhores companheiros de jornada. E tal como a maior amizade também lá encontrou o seu primeiro amor, nos campos ceifados, entre o feno e os milheirais, sempre nos Verões de sua vida, nas águas refrescantes que tão bem conhecia. Morava a escassos metros da casa que o viu nascer e crescer, lentamente, para a vida e cruzava-se com ela todos os dias. Tinha ‘a seu favor’ o facto de ser irmã de Bilito, seu braço direito nas brincadeiras do dia a dia e a quem ia segredando o seu interesse em querer partilhar as alegrias com figura tão altiva e bela.

Bela, assim era ela e assim era seu nome, ou melhor, como era chamada. Nunca ninguém antes fizera jus a seu nome. Claro que também nesta área eu tivera conhecimento. Contou-me que a primeira vez que se viram, meio envergonhados, ficaram parados a olharem-se mutuamente e com um jeito malandro lá começou a descrevê-la ali mesmo naquele instante. Claro que ela ficou estupefacta por, em tão poucos minutos, ter ficado a saber da existência de adjectivos tão bonitos e sonantes e que ainda por cima lhe eram dirigidos. Demais!

Descrevê-la era, por isso, um enorme prazer: a sua graça o seu modo de sorrir e de falar centravam-lhe todas as atenções. Que melodia eram suas palavras! Vindas duma boca perfeita e as formas de seus lábios numa face arredondada e rosada, cujos cabelos de ouro realçavam a alvura de sua pele. Bela! Deus quando a criou estava deveras inspirado pois os anos vindouros fizeram dela uma bela mulher que um dia fez disparar seu coração do mesmo modo que também ele sabe de sua importância nos primeiros momentos de fazer aquecer o coração dela. Tal é a certeza desse pensamento que bem recentemente fui conhecedor duma conversa onde ela, mulher casada e mãe de filhos, lhe disse sem pudores que ele tivera sido seu cavaleiro andante que jamais havia esquecido aquelas palavras carregadas de significado e de... adjectivos.

Afiançou-lhe uma cena que ele não se recordava: hoje lembra-se dele como o menino com o mesmo no-me no filme de Manoel de Oliveira ‘Aniki Bobo’. Carlitos andava sempre de calções curtos e descalço pois gostava de sentir as “impressões daquilo que pisava” Acreditem que nem o mato lhe metia medo. Arranjava sempre maneira de lhe fugir. E ele sorriu a es-ta descrição e confissão e apenas soube dizer sem som vindo de seus lábios: Obrigado! Ou daquela vez em que ouvira suas chanquitas a “cantarem” sobre as pedras da calçada, anunciando mais um regresso à aldeia, enquanto ela esperava, ansiosa, por mais uma caminhada aproveitada para pôr as novidades em dia. Dias inocentes mas que irradiavam alegria todos os segundos, minutos e horas.

Nesse tempo não havia Verão (mais tarde, nas férias grandes da escola), Carnaval ou Natal que não recebesse sua visita para festejar junto de seus familiares e amigos. Então, em relação à festa natalícia era sinal de mais um ano que terminava e urgia celebrar cada ocasião como se fosse a última. Na infância, Dezembro era o mês mágico. Da magia vinda dos presépios que se criava com todo o cuidado com as figuras bíblicas colocadas estrategicamente sobre o musgo que tinha sido colhido do monte às postas e do pinheirinho que assinalava a luz do nascimento e que emprestava à casa um aroma a pinho que ficou para sempre na sua memória.

Dezembro era a sua libertação. Sonhava o ano inteiro com o dia em que ia ao monte que ficava logo ali bem pertinho de casa de seus avós e de lá trazia a magia carregada ao colo. Eram outros os tempos. Tempos que passavam devagar para que as deliciassem de cada momento porque seriam únicos e porque afinal eram tempos de infância. Um tempo tão pequeno quanto nós.
Certamente, por isso mesmo, o que mais saudades traz nesta época de final de ano. Depois seria tempo de crescer e de deixar as magias para trás.

Ou como escreve o Carlos Tê na música do Rui Veloso “É triste ser-se crescido e não ter mais redea solta...” o que triste é ter de trocar os calções pelo colarinho apertado, ter cartão de identidade já com outro penteado. É́ tudo verdade sim senhor. É com estas músicas que vamos crescendo e dando sentido à nossa vida. Hoje tudo é diferente. Desapareceram as pessoas que mais amamos por que envelheceram e pereceram, as mesmas que nos sorriam a cada chegada do mês de Dezembro, para passar o Natal e Fim de Ano. Pais, avós, tios, primos pessoas que ajudaram a construir esses sonhos e que recordava com saudade a cada ano que passa.

Sempre agradeceu ter seus pais para lhe ajudarem a lembrar alguns cantinhos esquecidos dessa meninice feita com musgo e pinheiros, com rabanadas e aletria. Com foguetes feitos de canas de milho ou ainda daquela lareira que estava sempre acesa para lhes aquecer a alma depois de uma jornada ao frio cortante dos montes que ficavam nas faldas do Gerês.

Apesar de tudo ser diferente, hoje sente alegria porque afinal sempre podia sonhar que dali o mundo até parecia um lugar feliz onde era bom viver. Por isso, às vezes lembro que o Carlos Tê continua a ter razão: É triste ser res-ponsável, guardar horas na cabeça, ter tantas obrigações, que fazem andar depressa; Ai como é bom recordar, esse tempo de criança; Às vezes queria parar; Crescer muito também cansa.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

lindo

26 de Setembro de 2011 às 17:27h por carlos

traz de volta a saudade

bonito

26 de Agosto de 2011 às 16:09h por carlos

se a infancia perdurasse... parabens

Últimos artigos desta categoria - Conta o Leitor

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia