Pela boca morre o peixe

Ideias

autor

Joaquim Gomes

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As últimas semanas, em Portugal, estão a ser marcadas por uma enorme conflituosidade social. São várias as intrigas existentes entre agentes do poder político (veja-se o caso da aprovação da lei das Finanças Regionais); entre agentes do poder político e jornalístico (veja-se o pseudo episódio que envolve um jornalista de uma estação privada portuguesa); entre agentes da justiça (veja-se o caso “face oculta”) e, finalmente, entre agentes do desporto. O último episódio, caricato, ocorreu no passado sábado, dia 6 de Fevereiro, com a troca de agressões verbais e físicas entre, imagine-se, o seleccionador nacional de futebol e um jornalista, em pleno aeroporto de Lisboa!

Estes constantes conflitos, que temos vindo a observar com frequência na nossa sociedade, fazem-nos lembrar o caso que se passou com um deputado do século XIX. Chamava-se José Júlio de Oliveira Pinto Moreira.

Conhecido por José Júlio, apenas viveu 35 anos, mas a sua vida ficou marcada por episódios verdadeiramente hilariantes, e que acabaram de forma trágica.

Natural da freguesia de Barqueiros, do concelho de Mesão Frio (e não de Barcelos, como erradamente alguns mencionam), José Júlio de Oliveira Pinto Moreira nasceu em 1832, num ano absolutamente problemático na história do nosso país. (1)

Com apenas 21 anos (1853) José Júlio formou-se em Direito, tendo ainda formado uma grande personalidade e obtido prémios em várias áreas.
Foi um dos fundadores do jornal científico e literário “O Instituto”, no qual publicou vários artigos de índole científica, sendo um dos grandes divulgadores do pensamento de Proudhon no nosso país.

Nomeado membro da Comissão Revisora do Código Civil, em 1860, José Júlio acabou por exercer ainda numerosos cargos de grande prestígio, como chefe da repartição do Ministério da Justiça e Director Geral dos Negócios Eclesiásticos.

Muito crítico em relação à Igreja, escreveu vários artigos na publicação “A Nação”, nomeadamente um, datado de 12 de Outubro de 1866, intitulado “Episódios da história das relações entre a Igreja e o Estado em Portugal”, que lhe valeu violentas críticas do próprio Vaticano!

Eleito deputado em 1865, pelo Peso da Régua, com o apoio de Sá da Bandeira, José Júlio depressa tomou o rumo de uma independência política, que lhe viria a ser fatal. O próprio referiu algumas vezes que um deputado não se devia sujeitar às pressões da rua nem às ordens dos partidos. Ao longo do seu percurso como deputado, defendeu intransigentemente as questões do Douro, as desamortizações e a construção do caminho-de-ferro do Porto até à Régua.

José Júlio foi dos primeiros a defender, com intransigência, o casamento civil, facto que lhe provocou muitas críticas. Também a incapacidade do Parlamento em resolver os problemas do país preocupou este deputado, ao ponto de apresentar várias propostas de melhoria no funcionamento da Câmara dos Deputados.

Os seus discursos, proferidos com grande firmeza e convicção, faziam temer muitos dos seus colegas de Parlamento. Quando subia à tribuna parlamentar, todos os olhos se centravam nele, esperando sempre que algo de surpreendente pudesse sair da sua boca. José Júlio aplicava sempre uma forma agressiva e conflituosa, tanto na forma, como no conteúdo dos seus discursos políticos. As qualidades oratórias deste deputado eram de tal forma entusiasmantes, que ele próprio parece nem sequer as conseguir controlar. Prova-o o facto de, em vários discursos, essas palavras atingirem de forma violenta figuras públicas portuguesas, muitas delas de enorme prestígio.

O discurso proferido por José Júlio, na sessão parlamentar do dia 21 de Março de 1867, relativo ao casamento civil, não foi bem aceite por muitos dos seus colegas. Tanto nesse dia como no dia seguinte envolveu-se numa troca de palavras com o irmão do marquês de Sá da Bandeira, o deputado António Cabral de Sá Nogueira, um dos mais antigos e prestigiados parlamentares portugueses, a quem chamou de “decrépito e ininputável”!

A própria família de Sá da Bandeira sentiu-se ofendida com as palavras de José Júlio Oliveira Pinto. Por isso, Miguel de Sá Nogueira, um sobrinho de António Cabral de Sá Nogueira, que exercia as funções de oficial do exército ao serviço do príncipe Humberto, ao cruzar-se com José Júlio no Chiado, em Lisboa, cuspiu-lhe na cara e desafiou-o para um duelo. Destemido como sempre, o deputado aceitou o desafio.

Este duelo ocorreu às cinco da manhã do dia 29 de Março de 1867, na Azinhaga da Palma, junto do Campo Grande. O sobrinho do “decrépito e ininputável” deputado ofendido, mal o viu, disparou contra o peito de José Júlio, provocando-lhe a morte imediata.
Seria outro deputado, Silveira da Mota, quem viria a encontrar o corpo de José Júlio, numa carruagem, no Largo da Biblioteca Pública, em Lisboa.

A Câmara dos Deputados atribuiu uma pensão anual a Cândida Júlia Oliveira Pinto, viúva de José Júlio, que na altura da morte do marido se encontrava grávida.
A este episódio, que deixou os parlamentares e toda a sociedade portuguesa chocada, muitos associam o célebre provérbio “pela boca morre o peixe”.


1) Foi no ano de 1832 que se verificou uma autêntica guerra civil em Portugal, entre os partidários de D. Miguel (Absolutistas) e de D. Pedro (Liberais). Foi nesse conflituoso ano que, curiosamente, foram publicadas muitas leis de célebre Mouzinho da Silveira. Perante a triste situação do país, Mouzinho referia, com insistência, que as suas leis “valiam exércitos”!

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