Por já se ter dito tanto sobre ela e para não cair no típico erro do “contributo estereotipado” - coisa que a autora destestaria - decidi publicar parte de uma entrevista dela dada à SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), onde podemos recordar a sua desconcertante autenticidade e capacidade criativa. E também porque é assim que eu quero recordá-la.
“Maneja a ironia com a mesma naturalidade com que deixa escorrer a ternura ou diz: 'Morrer é uma coisa fascinante'.
Rosa Lobato Faria - Ao longo da minha vida sempre escrevi poesia. Nos bons e maus momentos. Grande poetisa não era, senão já se tinha dado por isso. Mas o facto de escrever sempre poesia (claro, também escrevia prosa, aí a partir dos 30 anos. Encomendavam-me crónicas, contos, um texto para aqui outro para ali). Mas porque é que nunca me passou pela cabeça dizer 'Vou escrever um romance'?
SPA - É uma boa pergunta, pelo menos depois de conhecermos o fim da história, ou seja, a sua capacidade de escrita e criatividade... Porque terá sido?
RLF - Por duas razões. Uma porque a poesia é uma coisa que vem ter connosco, não se procura. Não dá trabalho nenhum, surge inteira, passa-se para o papel e já está. É um exercício de síntese, por excelência. E essa, achava eu, era a minha vocação. Por outro lado, a prosa, ou seja, o romance, é um exercício de análise e essa análise implica pesquisa, eventualmente. Eu não me achava minimamente vocacionada para essas coisas. Nem sequer era uma ambição longínqua. Ao contrário das pessoas que dizem que adoravam escrever um romance, eu nunca tive esse pensamento. Essas duas razões, a análise e a pesquisa, deitavam por terra qualquer veleidade que eu tivesse de escrever prosa. Mas não tinha sequer essa veleidade. E, um dia, quando eu tinha 63 anos, Deus quis que eu nascesse de novo. Contaram-me uma história e eu fiquei a pensar nela. Aquela história não me largava a cabeça. E eu dizia para mim 'Isto é um conto, tenho que escrever este conto, senão não me vejo livre desta maçada'. E escrevi. Quando reparei tinha 240 páginas A4 e pensei 'Isto se calhar é um bocadinho mais que um conto'. Efectivamente, era um romance.
SPA - E que aconteceu depois?
RLF - Depois tudo ocorreu de uma maneira quase mágica. Pedi a dez amigos, muito diferentes, com diferentes formações académicas, de diferentes idades e extractos sociais, que lessem aquilo e me dissessem se era publicável. Eles acharam que sim. Mas não me propunha ir com aquela coisa debaixo do braço a sítio nenhum mostrar. Não me sentia capaz de andar de editora em editora a pedir para lerem o romance. Eu já era uma figura pública nessa altura, devido ao meu trabalho na televisão, primeiro pela poesi
a, desde 1961, e depois pelas novelas. Toda a gente me conhecia e eu não me via no papel do macaquinho que faz todas as habilidades. Não queria ir às editoras com aquilo. Estava neste pequeno desconforto - 'Tenho aqui um romance mas não o vou mostrar' - quando recebi um telefonema de uma editora. Era a ASA. Menos de uma hora depois desse telefonema recebi uma carta da D.Quixote a convidar-me para editar o romance. Comecei a achar que aquilo era um filme de ficção científica e não estava a acontecer. Nesse mesmo dia, quando o meu marido chegou a casa, ao fim da tarde disse-me: 'Olha, encontrei Fulano de tal da Bertrand que quer publicar o teu livro'. Tudo no mesmo dia! 'Isto só pode ser combinado no céu', pensei. Eu, como sou crente, acredito nos anjos e que os anjos é que me escrevem os livros, sou assim um bocado esotérica, achei aquilo um sinal de que de facto eu tinha de mandar o livro para a frente e publicá-lo.
SPA - Antes desse golpe de magia, fez muita coisa, mas o que a tornou conhecida foi a televisão...
RLF - Em duas palavras, posso explicar porque é que eu fazia televisão. Sempre quis ser actriz. Sobretudo a partir dos 11 anos quando subi a um palco pela primeira vez, a dizer poesia, claro, e fui tão aplaudida, porque aquilo era uma festa de colégio e os outros tinham as palminhas da família e eu tive uma sala inteira de pé a dizer bravo. E eu, com onze anos disse 'Eh pá, aqui é que se está bem, quero isto para mim'. O ego de todo o tamanho, era maior que eu. E decidi que queria ser actriz. Tinha uma belíssima dicção porque a minha mãe não nos deixava dizer uma ao lado, tudo tinha que ser perfeito e em português correcto. Senti também uma coisa, que mais tarde confirmei, é que o palco tem... uma energia, que entra nas pessoas e que nos faz sentir bem. Felizes. Agora também sinto isso quando estou a escrever, mas então não sabia que isso me iria acontecer 52 anos mais tarde.
SPA - (...) passa da representação para a escrita, nas telenovelas. Como é que se dá a transição?
RLF - Não há exactamente uma transição. Eu estou ligada às telenovelas, sinto-me impelida a escrever também telenovelas. Deu-se, inclusivamente, o caso de escrever novelas em que entrei. Como eu digo, é tudo um bocado a mesma coisa. Mas hoje em dia não escreveria uma telenovela porque é um trabalho escravo. E eu já não tenho paciência.
SPA- É muito violento?
RLF - É necessário escrever sessenta páginas por dia. Eu sou capaz de escrever 60 páginas num dia, sou capaz de escrever 120 em dois dias, mas já não sou capaz de escrever 60 páginas todos os dias durante dez meses. Domingos, feriados, dia de Natal... não sou capaz. Tenho vida. Há uma vida para além das telenovelas.”
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