1. Na semana passada, o País viveu uma onda geral de “crispação”, que envolveu vários agentes e sectores, sobretudo nas áreas da política, da economia e da comunicação social.
Portugal está sob a atenta vigilância dos mercados internacionais. A má fama além-fronteiras do descontrolo das contas públicas aumenta a pressão sobre a economia portuguesa. Os bancos privados perderam, nos últimos dias, centenas de milhões em Bolsa, porque são eles as primeiras vítimas da falta de credibilidade do País.
Por outro lado, o relatório sobre a situação social em 2009, publicado na terça-feira em Bruxelas, colocou Portugal como o sexto país com a pior situação social entre os países da União Europeia. Os portugueses queixam-se do custo de vida, do desemprego e das incomportáveis pensões de reforma; acreditam que a situação social do país se tem deteriorado nos últimos cinco anos e olham para os próximos doze meses com um incontido pessimismo.
Foi pois neste contexto de “crispação nacional” que se assinalou os cem dias de Governo de José Sócrates. O Presidente da República decidiu brindar a efeméride com a convocação de um Conselho de Estado. Apesar da boa intenção em si subjacente, diga-se que a medida teve o condão de difundir confusas teorias que davam como certa a demissão do Primeiro-Ministro ou do Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos. Um clima de instabilidade e de crise política artificial que certamente contribuíram para aumentar o nível de desconfiança das entidades económicas internacionais relativamente a Portugal.
A reunião, com a presença das mais eminentes figuras nacionais, terminou de forma tão enigmática quanto o fora o seu sibilino anúncio. A declaração final resumiu-se a apelar ao espírito de compromisso e diálogo na Assembleia da República que permita ao País enfrentar os desafios estruturais que tem à sua frente. O presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, saiu do Conselho de Estado com a expressão fechada e a desejar apenas 'bom Carnaval para todos'. Um cómico, folião convicto, o qual, ao invés do demonstrado, deveria ter exibido um sorriso de “orelha a orelha”, atendendo à anunciada conquista de transferência de milhões do erário nacional para a Madeira (a segunda mais rica de Portugal!).
2. A semana passada foi ainda palco para mais uma encrespada acusação, dirigida a José Sócrates, de ingerência na actividade de órgãos de comunicação social. Após o mediático “Caso TVI”, que tantas dúvidas colocou quanto ao possível envolvimento do Primeiro-Ministro no afastamento de Manuela Moura Guedes do “Jornal Nacional”, eis que su
rge Mário Crespo, quadro da SIC e cronista do Jornal de Notícias, a fazer cessar a sua colaboração neste Jornal, por alegada recusa do Director do JN em publicar a habitual crónica semanal do jornalista, o que, no seu entendimento, resultaria de pressões do poder político.
Na crónica em causa, com o sugestivo título “O Fim da Linha”, Mário Crespo fazia referência a um almoço entre o Primeiro-Ministro, dois outros Ministros, Jorge Lacão e um executivo de televisão, em que o jornalista teria sido o “epicentro da parte mais colérica da conversa” e definido como “um problema” que teria que ter “solução”.
Recebo habitualmente, por e-mail, crónicas da autoria de Mário Crespo, publicadas no JN, as quais são um sucesso na internet. Parece-me que é indiscutível a “colérica” forma como Mário Crespo abordava o Primeiro-Ministro e o Governo nas suas crónicas do JN (a título de exemplo: “O Palhaço”, publicada em 14 de Dezembro 2009). Esse “ódio de estimação”, por parte de Mário Crespo, é conhecido de todos nós e remonta ao tempo em que o jornalista era enviado especial da RTP em Washington. Quem não se lembra do conflito gerado entre Crespo e a RTP, em que o jornalista acusou o presidente da administração da televisão na altura, o socialista Manuel Roque (Governo de Guterres!), de lhe ter criado dificuldades que culminaram na cessação da relação laboral e nos tribunais?
Sempre simpatizei com a figura do jornalista Mário Crespo, mas, com toda a sinceridade, não posso deixar de censurar que um jornalista utilize a sua ferramenta de trabalho para atacar ferozmente um quadrante político, eivado de razões de natureza pessoal que, por si só, possam ter condicionado a isenção e clarividência exigíveis!
Parecem-me pertinentes as dúvidas que a crónica de Mário Crespo suscitou na direcção do JN - a mesma direcção que, no passado, nenhuma reserva fizera aos textos do jornalista em questão. Contudo, a crónica em causa faz referência a factos que necessitavam de confirmação junto das pessoas ali citadas, uma vez que o texto foi construído a partir de informações (ilações?) que tinham sido fornecidas por “alguém” que escutara uma conversa num restaurante.
Mário Crespo conhece o impacto que tem na internet, blogs redes sociais (etc..) e quis tornar-se um novo “mártir” nas mãos de Sócrates. Aproveitou para criar um “caso”. Para mim, e pelas razões expostas, com contornos bem diferentes de outros casos que conhecemos. De um jornalista como Mário Crespo, apenas se exigia maior ponderação e humildade.
E assim vai este país!
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