Nota de agradecimento (ao contrário do que é habitual, coloco esta nota de agradecimento logo no início desta crónica, pois assim asseguro-me de que ela é lida efectivamente pelo estimado leitor, ihihihih): Agradeço à Direcção do Colégio Teresiano de Braga a autorização que me deu para publicar a fotografia de uma magnífica escultura construída pelos alunos do 5ºA, no âmbito da disciplina de Educação Visual e Tecnológica, alusiva ao Dia Mundial do Não-Fumador, comemorado (sem fumo, obviamente) no passado dia 17 de Novembro. Esta obra de arte vale por mil crónicas minhas! Parabéns aos alunos e aos professores!
Passo de seguida a transcrever uma conversa realizada entre Sócrates e Nicotina, a bordo do avião da TAP que, em 2008, transportou a comitiva socrática de Lisboa para Caracas, em visita da República. Esta conversa foi-me relatada, na primeira pessoa, pelo próprio Sócrates, que nutre por mim, Daniel Luís, um profundo sentimento de “ou te calas ou apanhas com uma baforada de fumo nas trombas!”
SÓCRATES: Já depois de eu e o Manuel Pinho termos fumado juntos um maço de tabaco, regressámos a muito custo aos nossos lugares, pois o fumo invadia já todo o interior do avião (classe económica, executiva e bagageira), com os governantes, empresários e jornalistas a respirarem sonolentamente o ambiente nicotinado criado por mim e pelo Pinho. Recostei o meu banco para trás e quando estava quase a pregar olho, ouvi em surdina: “O Sócrates que restringiu o fumo em Portugal, devia dar o exemplo. Isto é uma pouca-vergonha!”. Então, pensei para comigo próprio “Mas que criaturinha tão ignorante. É este o momento ideal para eu fazer uma alegoria sobre o cigarro”. Levantei-me e dirigi-me até junto desse empresário, de seu nome Nicotina, sentei-me a seu lado, dei-lhe uma palmada nas costas e disse-lhe: “Porreiro Pá!”
NICOTINA: Então sr. Sócrates, já fumou tudo o que desejava?
SÓCRATES: Ainda não, porque o desejo do homem é infinito! E infelizmente, este espaço onde viajamos é finito. É a eterna dicotomia finito/infinito. E o cigarro, ao se reduzir a cinzas por acção da lenta combustão de que é alvo, permite ultrapassar essa dicotomia, pois também nós, seres humanos, vamos sendo consumidos lentamente por acção da marcha incessante do tempo, até nos transformarmos em cinzas e em pó. Ao fim e ao cabo, também somos fumados pela vida. Individualmente considerados, somos finitos em vida, mas colectivamente considerados, somos infinitos em existência, pois perpetuamo-nos de geração em geração, até ao dia em que nos esfumaremos todos por via do vício e de pecado do fumo!
NICOTINA: De certeza que o Sr. Sócrates só fumou mesmo tabaco?
SÓCRATES: Claro que só fumei tabaco! Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa na
tureza relativamente à governação do país. Imagina homens num país em forma de rectângulo, de grandes desigualdades sociais, com uma entrada virtual aberta à esperança; esses homens estão aí desde a infância, acorrentados à sua triste realidade, com dívidas por pagar e filhos por criar, de modo que não podem fugir nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes viciantes da miséria e da nicotina os impedem de dar o pulo para uma vida melhor. A porta aberta à esperança é a televisão. A esperança chega-lhes através das telenovelas da TVI e das crónicas desportivas de Rui Santos; contudo, entre a televisão e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante ao muro que divide fumadores e não-fumadores.
NICOTINA: Estou vendo.
SÓCRATES: Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que vendem sonhos, que prometem uma vida melhor, que juram a pés juntos que vão ajudar os prisioneiros do fumo a saltar o muro para o outro lado.
NICOTINA: Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
SÓCRATES: Nós estamos do outro lado do muro e de 4 em 4 anos subimos até ao muro para relançar a esperança entre os prisioneiros da miséria. Mas achas que, numa tal condição, eles estão preocupados com o que fazem os seus governantes? Achas que eles estão preocupados com a governação da nação?
NICOTINA: Penso que não, penso que não. Até porque quando sobem ao poder, as suas promessas esfumam-se entre discussões estéreis em torno de coisa nenhuma.
SÓCRATES: Agora, minha cara nicotina, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que sucedeu comigo há pouco. No mundo inteligível, a ideia de “vida saudável” é a última a ser apreendida, e com dificuldade! Mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de bom e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendra sorrisos fashion, de dentes brancos e sorrisos deliciosos; no mundo inteligível, é ela que deve ser soberana, dispensando o fumo e o vício do cigarro; e é preciso vê-la para se comportar com uma razoável sabedoria na vida particular e também na vida pública, mas sempre sem o fumo do tabaco.
NICOTINA: Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la, mas confesso que a não compreendi na sua totalidade. O senhor Sócrates fuma, mas é contra o tabaco!?!?!? O senhor é um poço sem fundo de paradoxos.
SÓCRATES: Pois… e que interessa isso? Quem ler isto que tire as suas próprias eleições… que são já para o ano… Faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço! E já que eu me revelei incapaz, espero pelo menos que os pais fumadores ao lerem isto, façam um exame de consciência e saltem o muro de modo a darem um bom exemplo aos seus filhos!
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